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O ridículo pode matar

Numa altura em que o Governo apresenta o Orçamento do Estado mais recessivo da democracia, PSD e CDS apostam tudo nos fait divers que possam desviar as atenções.

Numa altura em que o Governo apresenta o Orçamento do Estado mais recessivo da democracia e sem nenhuma previsão de crescimento da economia no futuro, PSD e CDS apostam tudo nos fait divers que possam desviar as atenções. Das gravatas às viagens em económica que não poupam um cêntimo que seja, não tenhamos dúvidas, esta campanha começa e acaba na descredibilização da política.

Nesta estratégia para disfarçar o indisfarçável, vale tudo. Até transformar a actividade parlamentar numa sucessão de episódios lamentáveis, como tem acontecido na comissão parlamentar de economia e obras públicas. O país em recessão, as PPP e concessões com custos galopantes, os transportes públicos à beira de fecharem com o pôr-do-sol, e, inacreditavelmente, a comissão de economia há já várias reuniões que vem perdendo horas e horas a discutir a capa de um dossier de uma consultora.

Na semana passada, os deputados chegaram mesmo a ser chamados a meio de um plenário para receber em mão uma nota da KPMG, consultora que trabalha para as Estradas de Portugal, em que a empresa desmentia a veracidade de um estudo que lhe tinha sido atribuído numa reunião da comissão de economia. As Estradas de Portugal, entretanto, foram ouvidas na comissão e desmentiram a empresa, confirmando a existência do estudo e dos dados nele constantes. Mas, na sexta-feira passada, a empresa foi ouvida na comissão, como se de uma conferência de imprensa privada se tratasse. E de nada se falou que não os critérios estéticos da capa, num ridículo crescente que incluiu mesmo ameaças pouco veladas de um empresa privada aos decisores políticos. Por muito que isso pareça escapar a alguns partidos, a sujeição do Parlamento a um papel de assumida menoridade perante os interesses de uma consultora é um insulto aos portugueses, que esperam outra coisa dos seus representantes. De resto, não deixa de ser esclarecedor que nunca se tenha visto tanta pressa e diligência em receber uma comissão de trabalhadores.

O Parlamento, ao contrário do que a empresa consultora possa pensar, e mesmo que às vezes muitos pareçam esquecê-lo, representa as cidadãs e os cidadãos portugueses e tem mais que fazer do que perder tempo com disparates e psicodramas empresariais. E por isso mesmo, porque há coisas bem mais importantes para discutir na comissão de economia, e que têm a ver com o dia-a-dia dos portugueses, recusei-me a participar na audição da empresa consultora.

Porque o Bloco de Esquerda nada tinha a perguntar-lhe e porque tudo o que a decência exigia era que se terminasse rapidamente com aquela cena lamentável, e com a série de reuniões lamentáveis em que a comissão se afundou, para se poder passar ao que realmente importa e discutir política.

E porque o ridículo pode matar. Neste caso, a democracia.

Uma nota final: a única questão séria que se levanta, e que assumiu ainda maior relevo depois da vassalagem que CDS e PSD prestaram à referida empresa, é a natureza das relações contratuais e o papel dos estudos que estas consultoras fazem para o Estado. A cadeia de interesses que representam, e personificam, talvez ajude a perceber muita coisa sobre o desvario financeiro em que se tornaram as parcerias publico privadas e o pesadelo que representam para os contribuintes. Mas essa não é matéria para discutir com os representantes de uma dessas empresas, mas antes da proposta política e de projectos para modificar o Orçamento de Estado. Estaremos na primeira linha desse combate, pela transparência e boa gestão dos dinheiros públicos, como não podia deixar de ser.

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora do Bloco de Esquerda. Deputada. Atriz.
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