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O regresso dos emigrantes

Um país que não respeita as suas diferentes gerações, não se respeita a si mesmo.

Em agosto rumo ao norte para visitar os meus pais, vindos de uma longa viagem de 1455Km, desde o interior de França onde estão emigrados. Mas esta não é uma história comum de emigrantes dos anos 60, à espera da reforma para voltar a Portugal. Esta é a história de um casal que foi forçado a sair do seu país aos 55 anos, depois de ter vivido toda a vida nele.

Ambos começaram a trabalhar aos 12 anos no final da década de 60. Nunca pararam. Atravessaram uma revolução, a crise dos anos 80 e a primeira vinda do FMI e as grandes deslocalizações de fábricas a partir do novo milénio. Passaram momentos melhores, outros piores mas lá foi aparecendo sempre alguma coisa para desenrascar. Conseguiram educar dois filhos e até mandar o mais velho para uma universidade pública que por isso só se autonomizou aos 25 anos. Quatro anos de escolaridade não dá para empregos fantásticos, mas tanto um como outro lá se especializaram na sua área do saber, ela como costureira, ele como carpinteiro. Trabalharam décadas inteiras para outros mas mais tarde também houve oportunidade para lançarem algo por conta própria. E houve sempre comida, livros, roupa, tudo o que é necessário para formar dois filhos adultos saudáveis.

O que não esperavam, certamente, era chegar perto da idade da reforma e ficarem desempregados, sem quaisquer rendimentos. Mas aconteceu. Nos anos da troika, de Passos Coelho, Paulo Portas e Assunção Cristas. Como milhares de jovens, muitos dos quais altamente qualificados, Portugal deixou-os sem soluções, sem futuro, sem perspectivas. Só que este casal não era jovem nem qualificado. Aliás, nem sequer falavam qualquer outra língua, para além do Português! E também não tinham ainda idade para a reforma, nem sequer rendimentos acumulados que lhes permitissem esperar por ela - ao contrário do que lhes dizia Passos Coelho, eles nunca viveram acima das suas possibilidades, nem tão pouco percebiam o que isso significava.

Decidiram emigrar, deixando em Portugal os dois filhos já adultos. Num acto de coragem que surpreendeu toda a gente. Com 4 anos de escolaridade e uma única língua falada, partiram para um país que não conheciam. À aventura? Não, não foi por aventura, foi por obrigação e absoluta necessidade. Correu bem. Mas podia não ter corrido, muitas vezes não corre.

Somos muito sensíveis ao desemprego de jovens qualificados. E bem, são o futuro do país e o resultado de anos de investimento colectivo em escola pública. Mas não podemos esquecer os outros. Todos aqueles que viveram toda uma vida do seu trabalho e que criaram essa tal geração de jovens qualificados. E que foram abandonados pelo país que ajudaram a construir. É obrigatório que procuremos soluções para o desemprego de longa duração, para aqueles que não puderam emigrar e que estão hoje sem subsídio de desemprego (porque ele já terminou o prazo) e sem perspectivas de futuro, porque é difícil alguém com mais de 50 anos ser contratado. Um país que não respeita as suas diferentes gerações, não se respeita a si mesmo.

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