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O regresso do complexo do aluno do fundo da sala

Afinal, o segredo é mais prosaico, basta estudar para os exames e depois “já se pode ir ao banco”, como agora se diz. É a isto que está reduzido o belo discurso sobre a Europa como solidariedade.

Se o remoque de Merkel sobre a gestão nacional das fronteiras e o risco dos visitantes ingleses em Portugal é diplomaticamente incómodo e deslocado, pese embora a razão sobre os factos da explosão da variante Delta, será que nos podemos queixar? Não é a primeira e pode-se temer que não seja a última vez que um “parceiro” europeu, logo tão estimado pelo Governo português como a chanceler alemã, trata o nosso país como uma periferia vagamente incómoda, cujo nome pode ser usado e abusado. Dijsselbloem, e tratava-se de um social-democrata da família dos PS, foi bastante mais frescote com os “copos e mulheres” que seriam consumidos neste canto à beira-mar, mas o princípio é o mesmo, o regente admoesta o aluno que se senta no fundo da sala para passar despercebido.

De seis em seis meses, a Comissão fará o exame, logo veremos se a matéria foi toda estudada e se temos boa nota

A bem dizer, este complexo está entranhado em governantes que nunca estranharam que assim fosse. Nelson de Souza, um ministro discreto e que tem em mãos a gestão do mapa do tesouro do Plano de Recuperação e Resiliência, nome encantador, deu uma entrevista ao “Público” que, de algum modo, constitui um exemplo da resposta, afinal sei a lição. Perguntado sobre como se chegou aos números dos compromissos de “83 investimentos e 32 reformas para concretizar 341 indicadores e objetivos” no âmbito daquele Plano, garante-nos com à vontade que “foi um processo interativo”, tendo o Governo proposto os indicadores que foram discutidos e, “no final, nem sabemos de quem é a autoria, se nossa, se da Comissão”, que “vai fazer uma avaliação global do cumprimento satisfatório daquele conjunto de indicadores. Naturalmente, se não cumprirmos a grande maioria daqueles indicadores, não vamos receber o dinheiro”. O jornalista puxou pela analogia do exame em várias disciplinas e o ministro enfunou as velas: “Temos de estudar nas que estamos mais fracos, para conseguirmos boas notas nos exames. Não há outra alternativa. Não podemos apostar na sorte de que saiam apenas as matérias que dominamos. Para termos a certeza, temos de estudar a matéria toda, para garantir o melhor resultado. Não podemos falhar. Aqui, a ambição é sempre a de ter a nota máxima.”

De seis em seis meses, a Comissão fará o exame, logo veremos se a matéria foi toda estudada e se temos boa nota. Em Espanha, onde as coisas são explicadas de modo menos rendilhado, as medidas que terão de ser “estudadas” para a boa nota no segundo exame, houve dispensa no primeiro, são alterações no sistema de pensões e nas leis laborais, pois em Bruxelas há queixas de falta de flexibilidade, o desemprego entre os jovens só anda pelos 40%. Na gíria europeia e também nacional, chama-se a isto “reformas estruturais”, termo transformado até numa espécie de invetiva, sicrano “não faz reformas estruturais”. Afinal, o segredo é mais prosaico, basta estudar para os exames e depois “já se pode ir ao banco”, como agora se diz. É a isto que está reduzido o belo discurso sobre a Europa como solidariedade.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 25 de junho de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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