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O que sobra?

O que é de Berardo é de todos, mas eu pessoalmente não gosto de ser gozado.

Segundo a Ernst&Young, Joe Berardo deve 320 milhões à Caixa Geral de Depósitos. Somando à dívida que tem com o BCP e com o Novo Banco (dívidas da sua fundação e de duas empresas suas), são 962 milhões de euros. Berardo, recorde-se, recebe também mais de um milhão de euros por ano do Estado para alojar a sua coleção no Centro Cultural de Belém. Recentemente, deu uma entrevista à revista Flash na qual falou dos lucros da Herdade da Bacalhoa (que é propriedade da sua Fundação). E recebeu o programa matinal de Manuel Luís Goucha “na sua casa” de luxo - mesmo que, alegadamente, em seu nome pessoal tenha apenas uma despretensiosa garagem no Funchal... Como é possível que Berardo, que anuncia lucros e exibe casas de luxo, não pague a dívida ao banco público, quiseram saber os deputados na Comissão Parlamentar de Inquérito à Caixa. É simples, diz o banqueiro: “Eu pessoalmente não tenho dívidas”. E sobre a casa? “Eu chego aqui ao Parlamento e, na porta, digo: ‘esta é a minha casa’. Também é meu. É de todos”.

Teremos sempre Estrasburgo

A “crise política” acabou, e foi num instante. Costa anunciou, faz hoje oito dias, que o diabo vinha aí e o Governo martelou as contas dos professores com um “rigor” que oscilava em centenas de milhões para cima e para baixo, consoante o Ministro. Os números vieram a ser publicamente desmentidos pela Unidade Técnica do Orçamento, tal como vários argumentos que foram esgrimidos durante a semana. Por razões meramente instrumentais, os professores foram contudo tratados com o mesmo esquema argumentativo que o CDS de Portas costumava usar contra os beneficiários do Rendimento Mínimo: é gente egoísta, preguiçosa, que vive à nossa custa, dá-nos cabo do orçamento e rebenta-nos com as contas públicas. O ódio social rende e não é de agora. Hoje, no Parlamento, PSD e CDS reapresentaram como inegociáveis as cláusulas do Pacto de Estabilidade e da Revisão da Carreira que tinham deixado cair. O PS, que dizia serem essas preocupações suas, votou contra. A manhã acabou com o desfecho anunciado: PS, PSD e CDS convergiram para chumbar o diploma. A “crise política” acabou, Costa afinal fica – e já vai de viagem. Passará o sábado num comício eleitoral com Macron, o homem que rebentou com o PS francês e o reduziu a cinzas, que acabou com o imposto sobre as grandes fortunas e que fez uma reforma laboral saudada pelo patronato por facilitar os despedimentos ou afastar a intermediação sindical nas empresas até 50 trabalhadores. Costa e Macron não estarão sozinhos em Estrasburgo. Nesse comício da campanha eleitoral do “En Marche” participa também o presidente do grupo da direita liberal, que votou a favor das sanções a Portugal. As mesmas que, nesse primeiro ano de Geringonça, Costa considerava “injustificadas e contraproducentes” e algo que "descredibiliza o funcionamento da Europa”.

“Nós somos o que sobra”

Nem uma linha nos jornais impressos, nem uma imagem na televisão: ninguém falou delas, mas elas tomaram a palavra. Eram pouco mais de 60, num universo de 600. Estiveram no Parlamento na passada quarta-feira. São ajudantes familiares a trabalhar há anos para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa a falso recibo verde. Fazem o apoio domiciliário a idosos, pessoas com deficiência, dependentes. Levam as refeições, dão banho, tratam da roupa e da higiene. Trabalham sem direito a folgas, sofrem o desgaste a sua profissão (as dores nos joelhos, as artroses, as tendinites, as doenças que apanham dos doentes que cuidam), mas não têm contrato nem sequer um seguro de saúde que cubra estes riscos ou lhes reconheça os acidentes de trabalho. Como elas, há centenas de milhares de trabalhadoras que, sendo tão essenciais à nossa vida em comum, são as mais invisíveis de todas, as de que ninguém fala, as que sobram, como nos disseram. Ensinaram-me uma vez que a palavra respeito vem de um verbo latino que significa olhar. Respeito é, assim, o direito a ser olhado, o direito a ser visto. É também disto que se trata. De salários decentes, do direito ao contrato, de condições de trabalho dignas, claro. Mas dessa exigência elementar e tão maltratada: respeito.

Artigo publicado em expresso.pt a 10 de maio de 2019

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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