Os números oficiais das listas de espera cirúrgica são um retrato claro do falhanço político do Governo de José Manuel Bolieiro na gestão do Serviço Regional de Saúde. Em fevereiro de 2026, havia 13.480 utentes à espera de cirurgia nos Açores. São mais 9,5% do que no mesmo mês de 2025 (+1.172 pessoas). E o tempo de espera é uma afronta: 488 dias de espera média, com uma mediana de 377 dias.
Para quem possa argumentar que há mais utentes em lista de espera porque haverá mais referenciações, a verdade é que os dados não sustentam essa explicação. A produção cirúrgica também caiu: em fevereiro realizaram‑se 685 cirurgias, menos 8,2% do que em janeiro de 2026 e menos 4,5% do que em fevereiro de 2025. Com este ritmo, a lista não desce — arrasta‑se.
E como se chega aqui? Pela ausência de uma política de saúde orientada para as necessidades das pessoas e para o futuro do SRS; por serviços a funcionar à custa do desgaste extremo de quem lá trabalha; e pela precariedade a regressar em força, pela porta do cavalo. Multiplicam‑se as contratações de trabalhadores a falsos recibos verdes, na sua maioria enfermeiros, porque a tutela insiste em não autorizar a abertura dos concursos necessários. Quando se normalizam más “soluções” de curto prazo — recibos verdes para necessidades permanentes — o SRS perde estabilidade, qualidade e rumo.
Os números confirmam esta degradação. Segundo dados da Direção‑Geral da Administração e do Emprego Público, o SRS tem vindo a perder médicos e enfermeiros. Em dezembro de 2022, o SRS contava com 838 médicos; em dezembro de 2025, tinha apenas 692 — menos 146 profissionais. O mesmo sucede com os enfermeiros: eram 1.887 em dezembro de 2022 e 1.751 em dezembro de 2025 — menos 136.
Entretanto, persiste a indefinição quanto ao futuro do Hospital de Ponta Delgada e continua por concretizar a criação de um Centro Académico Clínico, essencial para assegurar o curso de Medicina na Universidade dos Açores. Perder a licenciatura em Medicina seria um desastre para a Universidade e para a Região.
Sem uma ligação estruturada entre hospitais e Universidade dos Açores, sem formação médica avançada e investigação clínica, será cada vez mais difícil atrair e fixar médicos — e cada vez mais fácil empurrar o SRS para uma dependência crónica de remendos.
Os açorianos não precisam de propaganda. Precisam de mais capacidade, planeamento e visão de futuro. Caso contrário, resta‑lhes apenas a longa espera… pela saúde.