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As condições de atendimento a doentes psiquiátricos em Lisboa recuaram algumas décadas em apenas 3 meses. Este cenário é o início daquilo que prepara o ministério da saúde para os Hospitais de Lisboa.

A urgência de psiquiatria do Hospital Curry Cabral encerrou no início deste ano, tendo o atendimento daquela especialidade passado a ser efetuado no Hospital de S. José. Esta decisão foi comunicada uma semana antes aos psiquiatras e a transferência feita à pressa e sem planeamento. Quando chegaram ao Hospital de S. José os psiquiatras encontram pela frente instalações cuja descrição parece saída de um filme surrealista: os gabinetes de atendimento estão colocados no rés-do-chão, mas o serviço de observação (SO) fica no 3º piso. Isto significa que os médicos estão em permanência no rés-do-chão e os doentes mais agitados e críticos internados em SO, separados por 3 andares.

Lá em cima está destacado apenas um enfermeiro para 8 camas. Entre os dois locais existe apenas um auxiliar. A maioria dos doentes em SO tem que ser contida com amarras porque são na sua maioria doentes muito agitados que podem colocar em perigo a sua própria vida e um enfermeiro apenas não consegue tratar do assunto. Alguns doentes já tentaram fugir. Muitos ficam amarrados às camas porque o transporte para o Hospital Júlio de Matos demora.

Cá por baixo, com apenas um auxiliar em circulação e também um enfermeiro, foram já registadas situações caricatas de doentes que ameaçaram fisicamente psiquiatras, um inclusive com uma arma de fogo e cuja resolução teve de passar pela chamada da polícia. Ora a polícia, ao contrário dos profissionais de saúde mental, não sabe como lidar com este tipo de doentes e normalmente age com meios desproporcionados de força, derrubando os doentes e contendo-os com violência física. O acesso à sala de tratamento faz-se por umas escadas íngremes, o que significa que doentes em cadeira de rodas ou macas não têm acesso a ela.

As condições de atendimento a doentes psiquiátricos em Lisboa recuaram algumas décadas em apenas 3 meses - tudo fruto de uma decisão política apressada de fechar uma urgência para conter despesa. Na verdade este cenário é o início daquilo que prepara o ministério da saúde para os Hospitais de Lisboa: fecho de serviços sem critério clínico, concentração de urgências onde já não é possível concentrar, diminuição dos recursos humanos existentes com prejuízo para os doentes e tudo isto feito sem quaisquer critério de qualidade ou acessibilidade.

Pequenos cenários como os da Psiquiatria em Lisboa são pequenas histórias que vamos começando a acumular e que são o início de algo bastante perturbador e cuja dimensão será, no futuro, total. Serviços públicos de saúde de péssima qualidade, de más acessibilidades, escassos e que desprezam tudo o que o SNS nos ensinou e criou desde o 25 de Abril. É o futuro serviço público de saúde das misericórdias passadas para os pobres, enquanto o Hospital da Luz e as CUF's estiverem aqui, lado a lado, para servirem com rapidez e orgulho que se serviu do Estado ao longo de 30 anos.

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