Com o rescaldo das eleições legislativas, realizadas no passado dia 18 de maio, o cenário político delas resultante fica mais claro, o que permite desenvolver reflexões mais apuradas. Com enormes repercussões, estas eleições alteraram profundamente o panorama político do país, com dois fenómenos centrais: a estrondosa vitória da direita e da extrema-direita, e, no sentido inverso, a avassaladora hecatombe do PS e da esquerda. Ambos os casos são indissociáveis.
Sobre a vitória da direita, já disseram ao que vinham. Na própria noite eleitoral, face a resultados que indicavam que a AD (PSD/CDS), CH e IL tinham ultrapassado a barreira dos dois terços de deputados (a chamada maioria constitucional), os representantes desses partidos esboçavam sorrisos enquanto discutiam uma possível revisão da Constituição.
Com a nova composição parlamentar, a direita e a extrema-direita têm força suficiente para fazer estes acordos - a alteração à Lei Fundamental servirá apenas para se vingarem do 25 de Abril e adaptá-la aos interesses dos grandes capitalistas.
Acresce, a tudo isto, um natural acentuar das políticas de direita, a par da contínua normalização da extrema-direita. O crescimento do CH representa a falência do centrão, confirmando a ascensão das políticas do ódio e de uma narrativa de combate à democracia, e aos seus valores, bastante perigosa.
Por outro lado, o PS sofre uma pesada derrota, perdendo cerca de 20 deputados e, ao que tudo indica, passará a 3.º partido mais votado (à data em que escrevo este texto, ainda não estão disponíveis os resultados dos círculos da emigração). Quem normalmente votava no PS preferiu votar à direita, com uma mudança substantiva para a extrema-direita. Em apenas 2 anos, o PS gastou uma maioria absoluta e perdeu a confiança dos eleitores, que viram na extrema-direita uma alternativa, perante a falta de respostas dadas.
Quanto aos partidos da esquerda, embora o Livre cresça ligeiramente, o PCP perde 1 deputado, enquanto o Bloco passa de 5 para 1, ficando Mariana Mortágua sozinha no Parlamento. Esta perda resulta de diferentes fatores, não havendo uma única justificação - no entanto, é imperativo que os partidos reflitam sobre o que se passou e façam as mudanças necessárias. Ainda assim, há um aspeto que me parece fundamental: as forças de centro-esquerda e de esquerda, de diferentes formas, perderam os votos de quem trabalha, assim como das classes mais baixas e, também, dos jovens.
A esquerda tem de ser capaz de se reconstruir e encontrar um novo rumo, aproximando-se de quem dela se afastou. Para isso, é preciso traçar novas estratégias, procurando falar, diretamente, com as pessoas. A extrema-direita cresce com narrativas simplistas e desvia as atenções dos reais problemas do país, centrando-se em temáticas que apenas pretendem dividir a população, em torno de um suposto inimigo comum – os imigrantes. Nada disto é novo, pelo contrário, ao longo da História da Humanidade não faltam lições que ilustram isso mesmo. Resta-nos, agora, olhar para o futuro e construí-lo.
Artigo publicado no jornal Barcelos Popular a 29 de maio de 2025