O que está a acontecer em Gaza tem nomes: ocupação, genocídio, limpeza étnica

porMarisa Matias

16 de junho 2024 - 22:14
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Que nunca se confunda um regime colonial e sionista, como o do governo israelita, com o judaísmo e não se permita que as atrocidades e crimes cometidos pelo regime sionista possam alimentar discursos anti-semitas.

Escreveu Mosab Abu Toha, o poeta palestiniano e bibliotecário de Gaza, que um lar:

"É a sombra das árvores no caminho para a escola, antes de serem arrancadas"

"É o retrato a preto e branco do casamento dos meus avós, antes de as paredes desmoronarem"

"É o forno onde a minha mãe cozia pão e assava frango, antes de uma bomba reduzir a nossa casa a cinzas"

Um lar é onde cabe tudo o que está a ser retirado aos civis em Gaza.

Jorge Moreira da Silva, diretor-executivo da UNOPS, dizia há dias já não encontrar adjetivos para descrever o que se passa em Gaza, que neste momento já não vivemos uma crise humanitária, mas uma crise de humanidade.

Mais de 35 mil pessoas foram assassinadas, mais de metade mulheres e crianças, mais de 100 mil crianças órfãs, dezenas de milhares de pessoas feridas e amputadas. O que está a acontecer em Gaza tem nomes: ocupação, genocídio, limpeza étnica.

Corpos subterrados, valas comuns, crise sanitária profunda com corpos em decomposição nos escombros.

Um cheiro a carne podre insuportável.

São estas as descrições de quem está em Gaza.

Falta tudo, alimentos, medicamentos, água.

Às bombas, Israel usa a fome como arma de guerra.

Israel está a levar a cabo uma nova Nakba com a cumplicidade dos governos europeus.

O serviço de Ação contra as Minas da ONU estimou que, no final de Abril, havia 37 milhões de toneladas de detritos em Gaza e que, pelo menos, 10% dos engenhos disparados não explodiram, pelo que estão misturados.

Há 14 anos, eu entrava pela primeira vez em Gaza no primeiro grupo que conseguiu romper o bloqueio total imposto por Israel. Entrei por Rafah onde hoje estão mais de um milhão de pessoas deslocadas a morrer à fome, onde assistimos a imagens de horror e inferno e onde há poucas semanas as tendas dos refugiados foram bombardeadas depois de lhes terem dito que estavam em segurança.

Desde 7 de Outubro já poucas paredes sobram, hospitais e escolas incluídos.

Esmaga-nos a total impunidade de um governo que não olha a meios para aniquilar um povo.

É a ajuda humanitária que não chega porque Israel não deixa e, quando deixa, seleciona. À porta de Rafah acumulam-se as filas de camiões parados. Impedem a entrada de serviços e materiais médicos, de materiais para construir cozinhas, de paletes carregadas de água porque, segundo eles, podem ter utilização dupla, civil e militar. Impedem a entrada de carregamentos de croissants de chocolate porque, segundo eles, croissants de chocolate são um luxo e não ajuda humanitária.

Estes são os relatos da Cruz Vermelha que na fronteira tenta organizar a entrada e distribuição de bens.

Quando o Tribunal Internacional de Justiça decretou que o Estado de Israel teria de tomar medidas para evitar o genocídio, o que aconteceu? O Estado de Israel diminuiu a entrada de ajuda humanitária.

Quando o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandato internacional de captura contra Netanyahu, o que aconteceu? O Estado de Israel mandou disparar sobre tendas de refugiados em Rafah.

Tudo isto com a cumplicidade da comunidade internacional.

Que nunca se confunda um regime colonial e sionista, como o do governo israelita, com o judaísmo e não se permita que as atrocidades e crimes cometidos pelo regime sionista possam alimentar discursos anti-semitas.

E que nunca se permita também que quem quer propositadamente fazer essa confusão a use como desculpa para não agir perante um genocídio em curso.

Perante os assassinatos indiscriminados com recurso a armas europeias, esperaríamos dos países europeus uma voz firme a favor do embargo de armas a Israel, esperaríamos isso do governo português.

Perante toda a evidência trazida pelo Tribunal de Haia, só poderíamos esperar que, à semelhança da declaração de intervenção apresentada a 10 de Julho de 2022 no processo da Ucrânia contra a Federação Russa, vários países se tivessem associado à ação da África do Sul, esperaríamos isso do governo português.

Perante os discursos recorrentes em relação à solução de dois Estados, esperaríamos que os governos europeus que ainda não o fizeram reconhecessem o Estado da Palestina, esperaríamos isso do governo português.

Para haver solução de dois Estados é preciso que se reconheçam ambos, senão são só palavras ao vento.

O Bloco de Esquerda deu entrada de projectos de resolução para o reconhecimento do Estado da Palestina e para que Portugal se associe ao processo de África do Sul. Esperamos sinceramente que não exista uma maioria de cúmplices e que sejamos acompanhados pela maioria na libertação do povo palestiniano.

Declaração política na Assembleia da República a 12 de junho de 2024

Marisa Matias
Sobre o/a autor(a)

Marisa Matias

Deputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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