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O que é destruído quando se destrói uma cidade?

As notícias têm-nos mostrado vídeos e imagens de ataques brutais e da subsequente destruição de várias cidades ucranianas. Desde a Segunda Guerra Mundial e, particularmente, desde a Guerra da Bósnia (1992-1995) que vários autores têm vindo a utilizar o termo urbicídio.

Nas últimas semanas, as notícias têm-nos mostrado vídeos e imagens de ataques brutais e da subsequente destruição de várias cidades ucranianas: Mariupol, Kiev ou Kharkiv. Ataques aéreos, mísseis e tanques pelas ruas da cidade, ataques a zonas residenciais, marcos culturais e a lugares do dia-a-dia urbano. Não é a primeira vez. Desde a Segunda Guerra Mundial e, particularmente, desde a Guerra da Bósnia (1992-1995) que vários autores têm vindo a utilizar o termo urbicídio: o assassinato brutal de uma cidade, nas palavras de Aleksandra Milicevic.

Num artigo de 26 de março deste ano, o historiador Adam Tooze trouxe ao de cima a pertinente comparação entre a destruição das cidades jugoslavas durante a década de 1990 e as imagens que hoje nos chegam das cidades ucranianas. Vukovar, Dubrovnik, Mostar e Sarajevo ficarão para sempre gravadas no nosso imaginário coletivo como símbolos da brutalidade da guerra que pôs fim ao projeto da Jugoslávia. Esta guerra, movida pelo nacionalismo excludente e xenófobo sérvio e croata, ficou pautada por um profundo sentimento antiurbano, sendo as cidades as representações máximas de tudo aquilo que combatiam: o multiculturalismo e a vida em comum. Sarajevo, cidade plural e de convívio de culturas, foi alvo de um cerco brutal que durou quase quatro anos e, durante o qual, a Biblioteca Nacional, como símbolo da história e da cultural bósnia, foi brutalmente reduzida a destroços. Em Mostar, também na Bósnia, as forças croatas destruíram a emblemática ponte que ligava simbólica e literalmente o Oriente e o Ocidente na cidade, ultrapassando divisões étnicas. A razão para a sua destruição é clara: erradicar um símbolo de interculturalismo e aniquilar a história de um povo. Vukovar, na Croácia, uma cidade com pouca importância militar, foi reduzida a escombros, com o ataque propositado a áreas urbanas e residenciais. Estima-se que cada km2 da cidade tenha sido alvo de cerca de 5 mil projéteis. Assim, como explica o cientista político Martin Coward, o etnonacionalismo fez do urbicídio uma parte integral da campanha de limpeza e homogeneização étnica. Durante a Segunda Guerra Mundial, o projeto nazi a Leste pretendeu destruir as cidades, reduzindo a pó os pólos de intercâmbio cultural e intelectual progressista, em tudo antónimos do primeiro. Cidades polacas e soviéticas foram reduzidas a escombros num projeto de aniquilação cultural e história dos povos considerados inferiores.

Ao longo dos anos, vários foram os autores (Andreas Huyssen, Elen Sapega ou Derek Alderman) que descreveram as cidades como palimpsestos: compostas por várias camadas de memórias, como que um texto sobre o qual se vão inserindo novas camadas materiais ou performativas. Composta por museus, monumentos, memoriais e espaços comuns, a cidade é um corpo dinâmico e em constante transformação que, bebendo de múltiplas influências, forma um texto no qual podemos ler memórias, narrativas oficiais, disputas de poder e discursos sobre a identidade popular. Da mesma forma que se lê um texto, há quem o tente apagar. Deste modo, a destruição de uma cidade é o apagamento de todo esse texto cultural, memorial e histórico. Representa a eliminação da materialidade da história de uma comunidade, do arquivo físico da sua memória. Apagar uma cidade do mapa é, nada menos que eliminar a história, parte integrante de qualquer projeto etnonacionalista e genocida. A propósito da destruição da Stari Most (a ponte de Mostar), uma escritora croata, Slavenka Drakulik, escrevia que “a ponte somos todos nós”, sublinhando que a destruição de um edifício é uma forma de destruir uma memória coletiva, parte integrante da vida de qualquer povo.

A conquista do Lebensraum a Leste pelo exército nazi, o bombardeamento incessante de Gaza pelas forças israelitas, a campanha de limpeza étnica de bósnios muçulmanos levada a cabo por forças sérvias e croatas ou o ataque brutal das cidades ucranianas. São exemplos, que Adam Tooze também destaca, de guerras urbicidas que, sendo tão diferentes entre si, pretenderam todas, além da expansão imperialista, a eliminação do intercâmbio cultural e da história e cultura de um povo.

Artigo publicado em Gerador de abril de 2022

Sobre o/a autor(a)

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais na NOVA-FCSH. Mestranda em Antropologia sobre colonialismo, memória e espaço público na FCSH. Deputada na AM de Lisboa pelo Bloco de Esquerda. Ativista estudantil e feminista
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