São seis milhões de barris de petróleo ao longo de trinta anos, cerca de duzentos poços de petróleo somados a um aeroporto e dezenas de novos oleodutos — numa só exploração petrolífera. São 278 milhões de toneladas de emissões de gases de feito de estufa, o equivalentes às da Bélgica ou às de duzentos milhões de automóveis durante o mesmo período. Não é um pássaro, não é um avião: é o projeto Willow. Não é um Trump nem um Putin, é mesmo um Biden.
Willow é o nome do projeto para uma megaexploração petrolífera no Norte do Alasca, EUA, em terras públicas, já em pleno Ártico, que foi, após vários vais-e-vens, autorizada pelo governo de Joe Biden, para imensa felicidade da gigante ConocoPhillips que ficará com a concessão desta bomba fóssil.
Não há aqui nada com o mínimo de cabimento. O projeto vai obliterar terras das comunidades Iñupiats e a fauna da região, já acossada, que inclui os ameaçados ursos polares. Mas sobretudo, são catastróficas as consequências climáticas. O Ártico já está a aquecer quatro vezes mais depressa que o resto do planeta. Tanto que a ConocoPhilips terá de instalar um mecanismo gigantesco para congelar o permafrost (camadas de solo e matéria orgânica permanentemente congeladas, cujo derretimento liberta ele mesmo gases de efeito de estufa) de forma a conseguir estabilizar a gargantuesca infraestrutura petrolífera. Quando o aquecimento global já coloca em causa a própria exploração de reservas fósseis (geradoras de mais aquecimento), a natureza está a dar-nos um sinal evidente. Mas os governos e capital fóssil não temem o abismo… e dão um passo em frente!
Alerta para lá de vermelho
Tudo isto se dá num momento em que é publicado um novo relatório pelos cientistas do IPCC (o painel intergovernamental para as alterações climáticas) que se resume a um aviso desesperado. Este relatório diz-nos que estamos no limite das possibilidade de impedir que as temperaturas médias ultrapassem os 1,5°C de aquecimento — a meta do Acordo de Paris, a partir da qual os fenómenos climáticos extremos podem fugir do controlo de forma dificilmente reversível. Na verdade, como assinala Peter Thorne, diretor do centro de investigação Icarus, «iremos, quase que independentemente do cenário das emissões, atingir os 1,5°C na próxima década. A questão é se as nossas escolhas coletivas levarão a uma estabilização ao redor de 1,5°C ou à quebra dessa barreira, atingindo os 2°C e para além disso». Ou seja, as alterações climáticas estão aí, a luta é para evitar um cenário dantesco.
O mesmo relatório assinala o que isso significa, já hoje, para milhões de pessoas. Relembra, por exemplo, que, já hoje, metade da população mundial vive em áreas que, pelo menos durante parte do ano, há escassez de água — e sabemos que o nosso país se encontra cada vez mais perto desta fronteira.
É sabido há décadas que as únicas formas de mitigar estes cenários desastrosos — e impedir uma espiral de aquecimento e fenómenos extremos que perigue toda a civilização — são a não expansão da exploração de energia fóssil (gás, petróleo e carvão) e a redução do gasto energético global a par da transição para energias renováveis e o fim da queima destes combustíveis nas próximas duas décadas ou pouco mais. A primeira destas premissas é talvez a mais urgente e, aparentemente, a mais fácil. Mas a cegueira do capital fóssil e dos governos que o servem é, deveras, infindável e suicidária. Os governos de todo o mundo parecem guiados por uma ânsia autodestrutiva de saciar a ganância das grandes petrolíferas, mesmo quando afirmam o oposto.
Cercar os governos fósseis
Joe Biden, que em oposição a Trump se fez eleger como campeão do clima e defensor de um Green New Deal, não só aprovou o projeto Willow como já licenciou mais uma centena de explorações de energia fóssil que o seu predecessor havia feito na mesma altura do mandato. Na Alemanha, onde os Verdes fazem parte da coligação de governo, foi autorizada a expansão da mina de carvão de Luzerath, tornando quase impossível que este país atinja as metas de Paris. E mesmo no pacato Portugal o ministro fóssil Costa e Silva já disse que, apesar de a lei de bases do clima o impedir, não fecha a porta à prospeção de combustíveis fósseis no país. Ao mesmo tempo, a Galp, após obter lucros recorde graças à inflação, pretende expandir a exploração e importação de gás de Moçambique, Nigéria e até EUA. Com a crise financeira à porta, o sistema capitalista corre qual adicto para uma injeção fóssil mortal.
Mas eles podem ser parados. A aprovação do projeto Willow tem gerado uma onda de indignação nas redes de uma geração que depositou esperanças em Biden e o hashtag #stopwillow deve agora inundar as ruas. Por cá, as ocupas estudantis pelo fim ao fóssil devem regressar em breve. O vulcão da justiça climática está a ferver, prestas a explodir de indignação.
É possível e necessário que um movimento de milhões volte a mobilizar-se, estabelecendo as alianças que permitem conquistar maiorias e cercar o poder das petrolíferas e dos governos que não as enfrentam — como o nosso. Unir estas novas vagas climáticas à luta contra o aumento do custo de vida e por direitos é o caminho. Os operários que, em França, por estes dias, têm parado as refinarias contra o aumento da idade da reforma são pais e irmãos da juventude que faz greve pelo clima. Também cá essas pontes existem: atravessá-las lado a lado é o caminho para a vitória.