Por definição, dívida é aquilo que se deve. Se for moral, chama-se dívida de gratidão. Se só tiver por garantia a probidade do devedor, como a de jogo, chama-se dívida de honra. Seja que dívida for anda sempre de mão dada com a hipotética falta de cumprimento de um dever, com a culpa. Nos tempos que correm, as instituições europeias têm conjugado na perfeição os compromissos associados às dívidas públicas das economias periféricas europeias com um sentimento de culpa que deve ser sentido e praticado pelos seus cidadãos. A austeridade é a pena pelo pecado.
Os resgates à Grécia, à Irlanda e a Portugal já mostraram que, a continuar assim, a dívida destes países é impagável, que serão precisos mais pacotes de financiamento e que o caminho só promete mais austeridade, mais recessão e menos emprego. Mostraram também que quem manda são os mercados financeiros e que por mais honrados que sejam os cidadãos destes países, a perda fica sempre do seu lado. Os mercados financeiros continuam a sair intocados.
A origem do problema encontra-se como bem sabemos na obsessão do défice e numa política monetária comum que nasceu torta, ou seja, assente numa moeda sobrevalorizada face ao dólar, que tem sido benéfica para uns, mas aniquiladora para outros, como é o caso de Portugal. Isto não seria tão grave se a desigualdade provocada pela moeda pudesse ser compensada por um orçamento europeu solidário com os perdedores da moeda. Mas, como se sabe, o orçamento de Bruxelas é curto.
Com a dívida pública a aumentar, que é agora praticamente equivalente ao PIB nacional, com uma dívida privada que lhe é superior, com famílias altamente endividadas, encontramo-nos numa encruzilhada. É nestas alturas que é tão importante não se ser ingénuo: por mais bem comportadinhos que sejamos, a capacidade de sermos 'honrados' (de pagarmos o que se deve) depende mais das decisões europeias do que de nós próprios.
A confirmar-se o arrastamento da Espanha e da Itália para o 'pacote' dos resgatados já não será apenas de economias periféricas ou que pouco contam para a economia europeia, que estaremos a falar. Talvez então se perceba, de forma muito tardia, que estamos perante uma crise europeia e não perante a soma das crises dos países "preguiçosos".
Talvez valesse a pena adiantar caminho. Este o meu voto no dia em que escrevo e que é também o da reunião do Conselho Europeu dedicado à dívida grega.
Artigo publicado no jornal As Beiras, 23 de Julho de 2011