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O presépio e o oásis

Passos Coelho só deixou uma esperança na sua mensagem de Natal: a de que seja a última enquanto primeiro-ministro.

O primeiro-ministro escolheu o dia de Natal para falar de um país imaginário, onde o desemprego está em queda – “em particular o desemprego jovem”, sublinhou sem pestanejar – e muitos milhares de empregos são criados todos os meses. 

Neste oásis erguido por Passos Coelho com a ajuda da troika, pouco importa que os números absolutos do desemprego - como aqui demonstra o jornalista João Ramos de Almeida - revelem que o número de novos desempregados que se inscreveram nos centros de emprego foi em setembro o segundo maior de sempre: mais de 80 mil pessoas. Dizer que o desemprego “tem vindo a descer mês após mês”, como afirmou Passos na sua mensagem, é não querer saber da realidade de um país que viu fugir meio milhão de pessoas nos últimos cinco anos, e a maior parte desde o início do seu mandato. 

“Começámos a vergar a dívida pública”, entusiasmou-se o primeiro-ministro, indiferente ao facto dela ter disparado para valores bem acima das piores previsões do primeiro memorando da troika, ou que o aumento da receita fiscal arrecadada até novembro nem sequer dê para cobrir os juros que o país já pagou pelo empréstimo da troika.

O estilo propagandista da mensagem de Natal, centrado numa realidade paralela e alheia aos destinatários da mensagem, teve no entanto um ponto positivo: o alívio sentido pelos telespetadores por poderem passar o dia de Natal sem saberem como é que o Governo vai cortar os 388 milhões de euros que o Tribunal Constitucional não deixou roubar aos reformados. No fim de contas, a única esperança nesta mensagem de Natal de Passos Coelho é a de que seja a última enquanto primeiro-ministro.

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