Vivemos num tempo em que a empatia se tornou subversiva. Num mundo saturado de ironia, polarização e desinformação, sentir o sofrimento do outro passou a ser visto como sinal de fraqueza. A compaixão, que deveria ser o cimento das sociedades humanas, tornou-se um gesto suspeito, uma emoção desconfortável num tempo que idolatra a indiferença e o cálculo. A empatia é hoje o novo luxo moral: poucos a podem “pagar”, porque exige vulnerabilidade, atenção e coragem. A crise é civilizacional. Já não é apenas o colapso do planeta ou da democracia, é o colapso do vínculo humano. Vivemos rodeados de gente que aprendeu a rir-se do sofrimento e a dar-lhe o nome de “realismo”. A indiferença tornou-se uma virtude política e quem ainda se comove é tratado como ingénuo, “woke” ou sentimentalista. Mas o cinismo não passa de uma forma de covardia. É o refúgio de quem, para não sofrer com a dor do outro, se decide a negar a sua própria humanidade.
Ao contrário do que muita gente acredita, a empatia não é o contrário da razão. Como mostrou António Damásio, sentir é uma condição para se pensar. As emoções não nos afastam da racionalidade, são o que a torna possível. Sem empatia, a razão degenera em cálculo frio, e o progresso transforma-se numa máquina de exclusão. O verdadeiro desafio não é sermos eficientes, é sermos justos. Justiça sem empatia é apenas uma forma mais elegante de violência. O preço de sentir é alto. A empatia dói. Obriga-nos a ver o que preferíamos ignorar, a reconhecer o privilégio, a admitir a nossa parte nas injustiças do mundo. Mas o preço da ausência de empatia é ainda mais devastador: é a normalização da crueldade. É o jornal da noite que mostra crianças sob escombros e, logo depois, um anúncio a um crédito fácil. É a rede social que transforma o sofrimento em espetáculo e a tragédia em ruído de fundo.
Nada ilustra melhor este tempo do que a reação do Vaticano à catástrofe em Gaza. Numa entrevista recente, o Papa Leão XIV declarou que o que se passa ali “não pode ser chamado de genocídio”. Uma frase cuidadosamente escolhida, política e moralmente calculada, que procura evitar o peso das palavras para não incomodar gente muito poderosa. A religião mostra-se, demasiadas vezes, uma fábrica de cinismo. Em vez de libertar, consola. Em vez de denunciar a injustiça, pede “equilíbrio”. E esse equilíbrio, tantas vezes, é apenas uma palavra polida para designar cumplicidade. O cristianismo que dizia “o que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim o fazeis”, parece hoje resignar-se a ver os mais pequenos esmagados, enquanto foca o debate na semântica. É o cinismo moderno mas em versão teológica. Chama-se prudência diplomática. Mas não é apenas a Igreja. O mesmo mecanismo repete-se em quase todas as esferas (política, mediática, económica). O que antes era moralmente inaceitável tornou-se apenas “controverso”. O horror muitas vezes precisa de nome para ser combatido; quando o nome é retirado, o horror normaliza-se.
Chamamos “danos colaterais” às crianças mortas. “Operação de segurança” à destruição de um povo. “Crise migratória” à miséria que nós próprios ajudámos a criar. O vocabulário é o primeiro campo da batalha moral e estamos a perdê-la para os eufemismos do cinismo. O problema da empatia é que ela não serve o mercado nem o poder. A empatia atrasa, complica, exige responsabilidade. Obriga a olhar para o outro não como uma estatística, mas como uma vida concreta. Num sistema que transforma tudo em produto, até a indignação, sentir torna-se um ato de resistência. É por isso que os empáticos são ridicularizados. Porque não são funcionais. Porque lembram que há um mundo para lá do lucro, da imagem e da performance.
Mas há uma boa notícia: a empatia é contagiosa. Basta uma pessoa que escute sem julgamento, uma mão que se estenda, uma palavra que não tenha medo da ternura, para quebrar o ciclo do cinismo. A empatia não se ensina por decreto, aprende-se por contágio, por exemplo, por presença. E cada gesto de solidariedade, cada recusa em desumanizar o outro, é uma pequena insurreição contra um mundo que nos quer frios. O futuro será decidido entre duas forças: a do cinismo, que desumaniza para dominar, e a da empatia, que humaniza para libertar. A primeira é mais ruidosa, mais prática, mais rentável. A segunda é mais lenta, mais frágil, mas é a única que poderá salvar-nos de nós próprios.
No fim, talvez devamos reconhecer que o verdadeiro progresso não pode medir-se em inovação, mas em compaixão. Que a civilização não é o que construímos, mas o que não destruímos. E que, como lembrava Damásio, o ser humano não pensa apesar das emoções, mas através delas.
A empatia não é um adorno da moral, é a sua origem. O preço de a negar é o deserto moral em que já começamos a viver. Por tudo isto, um muito obrigado à Mariana, à Sofia, ao Miguel, ao Diogo e às centenas de ativistas, presos e torturados pelo crime de empatia.