O povo e os políticos

porJosé Manuel Pureza

29 de outubro 2011 - 13:29
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A contraposição entre “o povo” e “os políticos” é errada. Mais que nunca o que o nosso tempo exige é uma análise de classe da realidade social.

Espalhou-se por aí uma visão da sociedade que contrapõe o povo aos políticos. Nas redes sociais, nas conversas de transporte público, um pouco por toda a parte, a desgraça do povo é contraposta aos privilégios dos políticos. E essa contraposição termina invariavelmente na sentença de que é por causa dos políticos que o povo passa a provação que passa. Este senso comum merece três observações.

Primeira observação: sim, é verdade que o povo passa por uma provação inédita porque houve políticos que assim impuseram. Sim é verdade que é na política que está a responsabilidade das escolhas que nos conduziram aonde estamos. Mas houve dois lados nas escolhas, escolheu-se um caminho e recusou-se outro, houve uma maioria e uma minoria. Meter todos os políticos – os responsáveis pelos caminhos que nos levaram até aqui e os que a ele se opuseram em nome de alternativas que não foram escolhidas – não é só uma injustiça, é um branqueamento de quem não o merece.

Segunda observação: não confundamos condenação dos privilégios injustificados com desqualificação da política. Os privilégios injustificados são isso mesmo: privilégios e injustificados. Devem, por isso, ser extintos se forem privilégios e se forem injustificados. Tudo o mais é armadilha porque lhe subjaz uma estratégia, consciente ou não, de desqualificação da política que deixe o terreno livre para a mediocridade e que, mais que tudo, legitime a punição social generalizada. Como alguns têm lembrado, quanto mais os rendimentos de quem exerce cargos políticos for diminuído mais alento ganharão os que querem diminuir os salários e as pensões. Cair nessa armadilha só cai quem quer.

Terceira observação: a contraposição entre “o povo” e “os políticos” é errada. Mais que nunca o que o nosso tempo exige é uma análise de classe da realidade social. A contraposição que conta é entre os detentores do poder económico e os que de seu têm apenas a sua força de trabalho, braçal ou intelectual. “Os políticos” são apenas a voz do dono (ou a resistência a ela) dos donos de Portugal. E quanto mais se espalha a recriminação acrítica sobre a generalidade dos políticos, mais os donos de Portugal esfregam as mãos de contentes por não terem os holofotes da luta social a incidirem, como deviam, sobre eles.

José Manuel Pureza
Sobre o/a autor(a)

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Dirigente do Bloco de Esquerda
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