Para quem já não se lembrava, o ritual aparece com pontualidade de cinco em cinco anos: há eleição europeia e, como se não se passasse nada, há partidos que apresentam propostas que nos vão trazer novos fundos e a felicidade na União. Garantem que se vão bater por mais dinheiro para aqui e para ali e, naturalmente, por mais coesão e “mais Europa”, com paletes de solidariedade. E esperam que os crédulos votantes aplaudam e se deixem entusiasmar, ao ponto de ficarem sentadinhos à espera que, daqui a cinco anos, voltemos ao mesmo ritual.
Se resultar esta sedução do mais-dinheiro-mais-coesão, então valeu a pena a disputa sobre quem está no centro da UE. Lembro que o “nós somos Europa” de Mário Soares foi um retinto sucesso, dado que a grande maioria do país então via nessa fronteira a aproximação do bem-estar, da estabilidade e de chorudos apoios que se derreteriam pela pátria amada. O problema é que o que agora temos é um pouco diferente: estamos em pleno sarrabulho do ‘Brexit’; o orçamento comunitário continua sempre a encolher; a “reforma do euro” vai perdida em labirintos misteriosos; entretanto, alguns governos estão nas mãos da extrema-direita ou para lá caminhando; a economia treme; a experiência recente com a troika magoa; o sistema bancário é colonizado por aventureiros (chamou-se a isso “estabilizar” a banca nacional); e há dirigentes políticos que acreditam mais facilmente em ganhar o euromilhões todos os dias do que na cooperação para resolver o mais elementar problema europeu.
O teu fascista é pior do que meu
A consequência é uma descolagem entre a lógica do mais-dinheiro-mais-coesão e os temas que ocupam o ensaio pré-eleitoral. Sobra uma vertigem de extravagância e, se notarmos a quezília que vai por aí entre os partidos que governaram a UE, percebe-se esse fosso. O conflito começou por ser saber quem protege o autoritário mais perigoso: o meu é o Orbán mas o teu é o de Malta e o da Roménia, ou vice-versa, um ataca imigrantes e liquida os tribunais independentes, outro terá mandado matar uma jornalista, noutro abunda a corrupção, fica provado que o teu é pior do que o meu, que vergonha. Assim, logo no momento em que entreviram que se podiam vir a livrar de Orbán, Rangel e Melo saltaram em frente e exigiram de peito feito que o PS se “demarcasse” dos seus parceiros duvidosos. O PS vai por certo responder que os seus amigos são muito desagradáveis, mas que o PSD e CDS são compadres de um governo com neofascistas (Áustria) e querem outro com a extrema-direita (em Espanha). O que é simpático é que todos têm razão. Mas é uma extravagância que as grandes famílias europeias não consigam apresentar uma lista limpa e discutam entre si quem está mais conspurcado na ofensa aos direitos sagrados da democracia. Nada disso os impedirá, aliás, de fazerem campanha pelos ditos direitos sagrados e de prometerem a tal mais-coesão.
Uma outra extravagância são as candidaturas a presidente da Comissão Europeia. Haverá entusiasmo no apoio dos respetivos partidos portugueses, hossanas, discursos com uma ou duas palavrinhas em português, bandeiras ao alto, mas o problema é que os tais candidatos são figuras demasiado gastas. Um, Frans Timmermans, foi durante cinco anos o braço direito de Juncker e vem do partido de Djisselbloem; o outro, Manfred Weber, foi o chefe do PPE no Parlamento Europeu no mesmo período. São parte da mobília do establishment europeu que nos pôs nesta linda figura. O que os distingue é que o holandês vem de um partido que fez tudo para agravar a punição de Portugal com austeridade e que o alemão escreveu uma carta a pedir sanções contra Portugal. Um disse mata e o outro esfola. Provavelmente, nenhum será presidente da Comissão, mas seguem alegremente o seu caminho como se quisessem ser tratados como moeda sonante.
Pompa francesa
Vem depois o mais exuberante dos extravagantes: Macron, que escreveu pomposamente aos cidadãos e cidadãs em jornais em todos os países. As propostas são tão constrangedoras que nem o Governo português, que gosta da receita do mais-coesão e “nós somos Europa”, ousou segui-lo. Percebo o susto. Macron disparou uma lista de novas instituições para resolver todas e cada uma das dificuldades, uma Agência Europeia para a Defesa da Democracia, um Conselho Europeu de Segurança Interna, um Banco Europeu do Clima, uma força fronteiriça, uma política de asilo, um “salário mínimo europeu” mas “adequado a cada país” (vá-se lá saber o que isto quer dizer), uma força europeia de segurança alimentar, uma preferência europeia na contratação e política comercial contra chineses e norte-americanos, quando de facto não pode prescindir nem de uns nem de outros.
Parte destas sugestões contradiz os tratados e outra parte contradiz os discursos, além de que não sobra uma palavra para o euro e outras questões comezinhas, pois o Presidente francês salta de prioridade em prioridade como uma libelinha. E, cereja em cima do bolo, é oferecida uma pitada de macronismo retinto: o homem convoca uma “Conferência para a Europa” para o fim de 2019, que até poderia emendar os tratados europeus. Não é para levar a sério, Macron já tinha tentado este golpe da convenção europeia anunciando-a para fim de 2018. Aliás, a nova chefe da CDU de Merkel, Kramp-Karrenbauer, respondeu, com aquela elegância da cavalaria prussiana, que tanta conversa não serve para nada, mas que propunha uma boa ideia em alternativa: que a UE passe a substituir a França no Conselho de Segurança da ONU. Não é difícil adivinhar o entusiasmo diplomático que tal ideia provocou em Paris.
Porque é que então, no meio de tudo isto, é criticada a descontração de Pedro Marques na festa de rua em Loulé? Afinal, ele mostrou como se faz uma campanha eleitoral se não houver mais nada. Se não é para falar do ‘Brexit’ e de como a UE ajudou os conservadores britânicos, se é para esquecer o dinheiro dado a Erdogan e à guarda costeira líbia para taparem os migrantes do Mediterrâneo, se é para ser calado o recuo na tributação dos gigantes do digital e a tentativa de restringir a comunicação na internet, se é para se esconder as regras de corte de depósitos a aplicar na próxima crise bancária, se é para promessas de mais-dinheiro-mais-coesão, mais vale mesmo pular para cima de um carro alegórico.
Artigo publicado no jornal “Expresso” a 16 de março de 2019