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O peso dos indecisos

Mudar o sentido de voto ou a lógica dos apoios não implica romper com nenhum quadro de convicções pessoais. Uma questão de liberdade. Para os actuais indecisos, nenhum capítulo da História será reescrito quando decidirem o sentido de voto no próximo domingo.

Com a utilidade do voto útil a esfumar-se politicamente após a solução governativa da Geringonça, os indecisos escolhem agora onde depositar o voto com um tacticismo de que antes não desfrutavam. Este é o tempo em que votar é, mais do que nunca, a compreensão do exercício da liberdade e do funcionamento da democracia parlamentar.

Votar útil em PS ou PSD deixou de ter qualquer utilidade. O voto do centro pende agora para o juízo de prognose que adivinha a possibilidade de entendimentos relativamente a soluções governativas que, no passado, só estavam ao alcance de "partidos-muleta" como o CDS. Hoje, o equilíbrio não se faz pela sede de poder à direita mas sim pela noção de que uma maioria absoluta, venha ela de onde vier, é um cheque em branco a clientelas, autoritarismo, corrupção e laxismo. O equilíbrio faz-se pela forma como os eleitores indecisos irão "utilizar" os seus votos para reforçar os partidos da solução governativa à esquerda do PS. Hoje, a essência do voto útil só existe à esquerda de António Costa, as únicas forças capazes de entendimento com o PS. Se o equilíbrio do PS vier a ser o equilíbrio do país, o país que teremos joga-se pela força que Bloco de Esquerda e CDU vierem a ter no domingo. À semelhança do que sucedeu, inesperadamente, em 2015.

Imaginemos um caso de regressão alternativa. O que seria do país se as forças da PàF de Passos Coelho não tivessem sido derrotadas em 2015 pela força que os eleitores deram ao Bloco de Esquerda e CDU e que permitiu, posteriormente, a solução governativa com o PS? Se a PàF se gabava de ter ido "além da troika" nos cortes e ajustamentos que empobreceram o país e agravaram situações de extrema desigualdade social, não é difícil imaginar quão minguadas e conservadoras teriam sido, nesta legislatura que finda, as eventuais reposições de direitos pela direita ou por um PS a governar sozinho.

As sondagens indicam que Passos e Rio perderam milhares de votos para Costa durante os últimos 4 anos. A esta migração de votos dos descontentes da PàF, fruto da deslocação do eleitorado centrista e volátil para o PS, devem responder agora os indecisos que sabem que o equilíbrio de um governo minoritário se fará pelo peso relativo que Bloco de Esquerda e CDU vierem a ter. Ninguém sentirá, se alterar o sentido do voto, que está a retirar um quadro da parede, enviando-o para a sede o PS de forma a reescrever a História. Como referia o democrata-cristão Diogo Freitas do Amaral, "a direita costuma dar mais importância à propriedade do que à liberdade". À esquerda ninguém tem a propriedade do voto.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 4 de outubro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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