Daqui a uma semana, voltamos às urnas para eleger o/a futuro/a Presidente da República e esta eleição não será apenas institucional – será um espelho. Do que fomos, do que tolerámos e do que estamos dispostos a permitir.
Durante décadas, tratámos as presidenciais como um ritual confortável, elegíamos figuras conhecidas, vozes tranquilas, rostos que não nos obrigavam a escolher demasiado. O Presidente tornou-se, aos olhos de muitos, uma presença simpática, quase decorativa — alguém que comenta, que abraça, que aparece, mas que raramente confronta. Este hábito criou um vazio perigoso, porque quando a política deixa de intervir, outros chegam para ocupar espaço.
O discurso de ódio tem-se mostrado eficaz porque é simples, aponta culpados fáceis, reduz problemas complexos a frases curtas, troca a análise por raiva e a política por humilhação pública e quando o povo se sente ignorado, qualquer voz que grite parece coragem. É assim que a revolta justa se transforma em voto perigoso, que o medo se disfarça de solução, que os insultos passam por opinião e que a violência verbal é normalizada como frontalidade.
O crescimento da extrema-direita não aconteceu num estalo, não surgiu do nada. Cresceu devagar, alimentado por cansaço real, por frustrações legítimas, por salários que não chegam, por casas que existem em número crescente, mas cujo preço expulsa quem vive do seu trabalho, por um futuro sempre adiado. O problema não é a revolta — o problema é quem a transforma em arma… E nada disto é acaso, é estratégia.
O crescimento acentua-se mais quando se insiste em dizer que “todos os políticos são iguais”, que “ninguém representa ninguém”, que “mais vale votar contra alguém do que por algo”. Esta lógica é a base do extremismo: esvaziar o sentido da escolha até só restar ressentimento, mas há alternativas. Sempre houve.
A esquerda existe precisamente para transformar revolta em justiça não em ódio, para responder à indignação com propostas, não com bodes expiatórios, para olhar para quem sofre e dizer: o problema não és tu, é o sistema que te falhou.
As sondagens indicam uma segunda volta — algo que não acontece desde 1986. Durante quarenta anos, habituámo-nos à facilidade, tudo resolvido à primeira, sem tensão, sem escolha dura. Esta facilidade adormeceu-nos e é por isso que estas eleições importam tanto.
Agora, acordamos com um cenário onde o extremismo não está à margem — está no centro do debate e é aqui que surge outra armadilha: a do voto do medo antecipado. Há meses que ouvimos o mesmo apelo: que a esquerda se concentre num único candidato “seguro”, “moderado”, “viável”. Um candidato que durante muito tempo evitou compromissos claros, que preferiu a ambiguidade confortável, que não assumiu riscos quando outros o fizeram desde o início. Quando o perigo é evidente, pede-se à esquerda que abdique, que se una à pressa, que sacrifique convicções em nome de uma segurança mal explicada, mas não é assim que se defende a democracia.
A primeira volta não serve para fazer contas com base no medo. Serve para afirmar projetos, para mostrar que existem caminhos diferentes, para dizer que não aceitamos que o debate político seja reduzido a insulto versus simpatia televisiva.
A cruz no boletim não pode nem deve ser um gesto de pânico, não pode ser feita a pensar apenas no que queremos evitar, tem de ser feita a pensar no país que queremos construir.
A segunda volta irá existir para garantir segurança democrática. Quando lá chegarmos, saberemos escolher para travar o pior, a história mostra que o povo português sabe fazê-lo, mas pedir à esquerda que se apague logo à partida é abrir caminho ao discurso que diz que “não há alternativa” e quando não há alternativa, o ódio vence por defeito.
Queremos um/uma Presidente que intervenha.
Que fale quando a democracia é atacada.
Que não relativize discursos que desumanizam.
Que compreenda que o seu papel não é ser um acessório no sistema, mas defendê-lo.
Queremos um país mais justo, mais solidário, mais europeu no sentido profundo da palavra — onde a política não se faz à custa da humilhação, onde a revolta encontra respostas e onde a coragem não é confundida com gritaria.
No dia 18, votemos por convicção, por liberdade, para afirmar que há alternativas ao medo, porque a democracia não se defende com silêncio nem com atalhos. Defende-se com escolhas claras, coragem política e memória histórica.
E desta vez, não podemos fingir que não vimos crescer o que agora nos bate à porta.