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O pastel de nata é 100% português?

O argumento do portuguesismo desconhece a realidade do desporto e do nosso país que sempre foi uma encruzilhada de migrações. Só podemos agradecer e festejar com Pedro Pichardo a sua medalha, tão portuguesa como o pastel de nata.

É uma pergunta difícil. Tem de ser portuguesíssimo, pensamos nós. É ali de Belém, ou de outros lugares pátrios, uma iguaria que ninguém consegue imitar na perfeição, um segredo só nosso. Já foi uma marca de identidade de campanha promocional, há filas de estrangeiros e de indígenas à porta das pastelaria mais afamadas, tem de ser nosso, orgulhosamente nosso.

O problema é a massa folhada. É um imbróglio histórico: terá sido inventada por um francês em Roma, ou por um pasteleiro, também francês, em Nancy. No século XVI, terá sido, só que uma carta de um bispo umas centenas de anos antes menciona a iguaria. Resumindo, a massa folhada não é portuguesa e nem se sabe quando e onde foi inventada. E pode um bom pastel de nata, 100% português, ser feito sem massa folhada estrangeira? É que não pode. Aqui chegado, será de perguntar se a questão da percentagem de portuguesismo tem a menor relevância. Pois, não tem mesmo qualquer sentido. O pastel de nata é uma combinação única feita com os materiais disponíveis, acrescentando um engenho especial, produzido como uma combinação especial. A inovação está aqui: no caráter único da mistura de ingredientes e no modo de confeção.

Saber se a medalha de Pedro Pichardo é 100% portuguesa é exatamente a mesma coisa. Nasceu em Cuba, revelou-se como atleta de exceção na sua terra de origem, aí treinou com o seu pai e com outros desportistas e escolheu Portugal desde 2018. Ganhou uma medalha e, se alguém tem dúvidas, com todos os ingredientes da sua formação e da sua vida, foi ele quem ganhou a medalha. E, como decidiu ser português, essa é uma medalha portuguesa. A percentagem dos ingredientes é irrelevante, pois só ele os soube juntar e ninguém mais o faria como ele – e ele é o que quis ser.

Aliás, ninguém se interrogou sobre se o quarto lugar no lançamento do peso de Auriol Dongmo, nascida nos Camarões e naturalizada há somente um ano, é “português”. A inexistência da dúvida sobre o caso revela que só se discute Pichardo por se tratar de Cuba. Pois é uma péssima forma de defender Cuba, anedotizando a questão política e aceitando uma mistura tóxica do argumento com o lado sombrio do nacionalismo, aquele que resvala para o exclusivismo e para o supremacismo. E para o disparata: numa perversa lógica identitária baseada na origem e na pureza nacional de um percurso desportivo, então a medalha da canoagem estaria tingida pelo facto de o selecionador da disciplina ser checo. Ou seja, este argumento do portuguesismo leva a desconhecer a realidade do desporto e, já agora, do nosso país, que é e sempre foi uma encruzilhada de migrações. Que Pedro Pichardo nos tenha lembrado isso, só lhe podemos agradecer e festejar com ele a sua medalha, tão portuguesa como o pastel de nata.


Artigo publicado no Expresso a 10 de agosto de 2021.

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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