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O partido do carteiro e do comentador

Quando o Governo cair, o que já esteve mais distante de acontecer, o problema político imediato em Portugal chama-se Partido Socialista. E na última semana deu-nos sinais fortes do quão grande esse problema pode ser.

António José Seguro anunciou a sua quarta carta oficial desde que é secretário-geral, a segunda dirigida à troika no espaço de um mês. Nela está o seu programa político: governar com a troika, pagar a agiotagem da dívida, fazer cumprir o memorando. A moção de censura do PS é, pois, nada mais, do que o preâmbulo público em que o amante ciumento anuncia enviar em carta lacrada a sua declaração de amor.

Seria essa uma posição confortável, não fossem algumas vozes, entre as quais a de Augusto Santos Silva e Francisco Assis, terem já afirmado que para levar avante qualquer censura o PS teria primeiro que se afirmar como alternativa à governação, traduzindo: eleger António Costa e perspetivar uma aliança à direita num cenário pós-eleitoral sem maioria. Esta visão dos meandros do largo do rato, que foi espatifada pelo recuo de Costa, parece ganhar novamente força como tese com a volta de Sócrates trasvestido de comentador – o PS seria um partido de biombos na sala, de galos de briga, lasso na sua condução e capaz de conter em si sensibilidades tão variadas que a esquerda nunca poderá, sob a pena capital, deixar de esperar por ele para uma solução governativa. Uma tese ousada, contestável, mas que sempre fez o seu caminho.

A verdade é que o PS é um partido duro. Tem oitenta e cinco mil aderentes, um milhão e meio de votos, dezenas de câmaras municipais, domina a capital do país e esteve mais tempo na governação do que qualquer outro partido nas últimas duas décadas. Para além de se ter constituído como o centro da alternância política, o PS confunde a sua história com a do Estado. A ocupação do espaço à esquerda nos anos de recomposição política pós PREC fez do PS o catalizador do bloco histórico de integração apoiado pela social democracia europeia, com todas as suas contradições e com todas as suas forças. A expansão dos serviços públicos, a aceleração da reconfiguração produtiva baseada na desindustrialização, a recomposição da finança e o reagrupamento da alta burguesia portuguesa, em todos esses processos o PS foi não só peça decisiva como agente beneficiário – só a captação intensiva de quadros operada nas empresas públicas, nas universidades e nos centros de decisão financeira permitiu atingir o nível de consistência política e organizativa que hoje apresenta. O PS não é, portanto, um partido colonizado, como muitos o classificam, é um partido conquistador, pilar do Estado tal qual o conhecemos.

O PS é também um partido largo, ou seja, não é monolítico mesmo não sendo muito diverso. Há bem pouco tempo era possível ouvir em sua representação Luís Amado, mas também o Pedro Nuno Santos, como já foi no passado possível ouvir António Nogueira Leite, mas também a Ana Benavente. E só um ato de fé poderá declarar a igualdade ideológica destas partes. Mas é bom não esquecer que a questão é sempre saber quem manda, e no PS das últimas duas décadas esse poder de mandar nunca esteve em disputa. O Governo de Guterres é, aliás, o espelho desse partido a duas velocidades, onde os ministérios da área social foram fortalecidos ao mesmo tempo em que a política dura se concentrou na concretização das privatizações já bem cozinhadas por Cavaco. O essencial não é invisível aos nossos olhos, veja-se onde estão hoje os governantes dessas áreas para se conhecer o final da história e o paradeiro do poder.

Por fim, é importante, olhar para o que o PS é hoje. Depois do período protagonizado por Sócrates, no qual a aliança fraterna com os donos da economia foi a pedra de toque, o PS segue sendo mais um partido do PSI-20 do que da esquerda política. O congresso do final de Abril será a imagem desse confinamento político. Um congresso onde a moção já vencedora cita a troika por duas vezes, uma para referir o óbvio – que o memorando foi acordado após a queda do governo PS – e a outra em forma de queixume – reclamando que o Governo acordou o novo valor do défice sem envolver a oposição. O resto é um deserto, onde, como no de Buzzati, alguns teimam, em vão, avistar a vinda dos tártaros (povo turcomano como sabemos). Por aí percebemos a força da troika, que arrastou o centro político e amarrou todos os níveis de decisão, aqui, como na Europa, com Hollande a favor do confisco cipriota.

Se o PS faz hoje parte dessa decisão e desse percurso histórico, também é verdade que muitos socialista se encontram hoje em espaços novos, em torno de políticas e de programas, que reúnem pessoas muito para lá do diktat do partido. E tantos que saíram à rua no dois de Março contra a troika, que já perceberam que a moção de censura é uma opereta de muito mau gosto. Essa é a novidade da política que importa e um dos caminhos para superar o problema chamado PS. É por isso que hoje se torna um exercício tão pouco interessante falar-se de coligações à esquerda com a direção do PS, seja no plano nacional, seja no plano autárquico – neste último em particular, cilindrado que foi pela força centrifuga da troika, e no qual o PS fez tudo para impor os seus próprios candidatos como cabeças de cartaz de qualquer coligação.

Compreender o papel histórico do PS é um dos desafios mais decisivos para uma esquerda forte. O desafio de um tempo de combate, de alternativa e de transformação radical. Um tempo em que os apelos acabaram.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, dirigente do Bloco de Esquerda e ativista contra a precariedade.
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