O Padre Mário foi meu vizinho em São Pedro da Cova. Embora o próprio repetisse com frequência que já não era padre, era conhecido na freguesia como o Padre Mário. Como se o povo insistisse em conhecê-lo como padre, à rebeldia da Igreja que lhe retirou o título. Conhecido lutador contra o fascismo e a guerra colonial, foi, acima de tudo, um pensador desassombrado e, por isso também, um crítico da Igreja. Há quem diga que era um lutador de causas, tendo abraçado a despenalização do aborto ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em São Pedro da Cova, era simplesmente o Padre Mário, o homem de fé, que andava no meio do povo, que dedicava os seus dias aos mais desfavorecidos, aos esquecidos, aos marginalizados.
Quando eu tinha apenas 11 anos, como projeto de turma, fomos entrevistá-lo. Eu e mais um grupo de outros miúdos de 11 anos. Recebeu-nos em sua casa. À volta da mesa, o Padre Mário podia ter-nos falado sobre valores ou doutrina de fé, sobre os ensinamentos do evangelho que nos compelem a viver entre os nossos semelhantes e a partilhar o que temos. Não o fez. Escolheu falar-nos sobre o "povo marginalizado de São Pedro da Cova", sem esquecer ninguém. Falou-nos sobre os desempregados que viviam no ainda degradado bairro mineiro, logo ali ao lado de casa. Sobre o estigma da pobreza, da exclusão, da falta de solidariedade de uma sociedade construída sobre o egoísmo do mais forte. Como estávamos nos anos 90, falou-nos também sobre o problema da toxicodependência dos jovens, na altura um autêntico flagelo na freguesia. Falou-nos, claro, sobre o problema do aborto clandestino e da perseguição que o país, naquele tempo, fazia às mulheres que escolhiam interromper uma gravidez. Falou-nos também sobre as mulheres que faziam trabalho sexual na "volta da estrada" e como a sociedade as marginalizava e esquecia.
Para mim, com apenas 11 anos, aquela conversa foi um choque! Porque se atrevia o padre a falar sobre assuntos tão sérios com aquelas crianças?
Anos mais tarde estive na linha da frente pela despenalização do aborto, durante o referendo de 2007, dei a cara pelos direitos das pessoas LGBTI+, pela legalização do consumo das drogas e lancei naquela freguesia uma candidatura autárquica na qual percorri muitos bairros, como o bairro mineiro (agora reconstruído), por uma habitação digna para todos.
Não sei se o rumo que a minha vida seguiu foi muito ou pouco influenciado por aquela conversa aos 11 anos. Sei que não a esqueci! Sei também que, mesmo só tendo 11 anos, todos os dias passava por grupos de rapazes e raparigas a injetar heroína, debaixo do viaduto. Sei que todos os sábados, quando íamos ao supermercado passava por aquelas mulheres da “volta de estrada” e sabia perfeitamente o que estavam ali a fazer. Sei que uma delas era mãe de uma colega de turma. E sei que cerca de metade dos meus colegas viviam naquele bairro mineiro.
Passaram 30 anos e o Padre Mário desapareceu. Mas viverá nos ensinamentos de solidariedade desassombrados, que me deu a mim e a todos aqueles miúdos de 11 anos, agora adultos. Tal como das milhares de pessoas a quem as suas ideias de igualdade e compaixão marcaram de forma permanente! Obrigado Padre Mário!