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O outro lado da linha

Os call-center são os maiores aglomerados de precariedade neste país, onde os salários base são os mais baixos possível.

Recentemente licenciada e ainda a estudar, Ana começou a trabalhar num call center de uma empresa de telecomunicações para poder pagar os estudos. Já licenciado,o João desistiu de prosseguir os estudos e está num call centre de uma empresa de energia. A Maria é professora sem colocação (desde que iniciou a carreira), só conseguiu arranjar um part-time num call centre na área da banca para se conseguir sustentar. O José é enfermeiro de formação, mas em Portugal a única coisa que consegue arranjar é o mesmo call centre que o João, também em part-time. Já a Rita, mal acabou o 12º ano, nem sequer pensou em continuar a estudar, foi trabalhar para um call centre para ajudar os pais em casa.

Estes nomes são todos fitícios, mas todas as situações são reais nos locais de trabalho por onde tenho passado, os call centres desta vida. Os maiores aglomerados de precariedade neste país, onde os salários base são os mais baixos possível, mas tentando que as pessoas trabalhem o máximo de horas possível. Um part-time de 6 horas facilmente se converte em mais uma hora extra aqui ou ali; um full-time de 8 horas para muita gente se converte em 12 ou 13 horas, porque o desespero de muitos e muitas para sobreviver já chegou a este ponto.

De novo, tudo situações reais. Passam uma, duas, três semanas, o que seja, a incutir-nos, nas formações, que somos a voz da empresa, apesar de nunca sermos trabalhadores da mesma. Depois da formação, por vezes ainda há um, dois, três meses de “estágio”, porque ainda assim podemos não ser a melhor voz da empresa; se sairmos, devolvemos o parco dinheiro que recebemos da formação.

Situações reais. Já não são só os mais jovens na sua busca pelo primeiro part-time para ir ajudando que estão nestes grandes centros de precariedade. Pessoas cuja carreira de 20 anos numa determinada empresa acabou devido à crise também se juntam, cada vez mais, aos jovens precários deste país.

Contratos de legalidade muito duvidável, salários o mais baixos possível e com os mínimos direitos. É a isto que nos vamos habituando. Digo habituando porque o que começa como uma coisa passageira, um trabalho temporário para aguentar uns meses ou só até acabar a faculdade, se torna, cada vez mais em algo nada temporário, mas muito longo no tempo; dez, doze, quinze anos ou mais às vezes.

Conseguirão imaginar quinze anos a trabalhar no mesmo local, supostamente para a mesma empresa, mas nunca pertencer à mesma? Conseguirão imaginar quinze anos a contratos temporários? Conseguirão imaginar quinze anos em que mais de metade do vosso salário real fica retida numa qualquer empresa de trabalho temporário? É difícil, mas infelizmente é a realidade de cada vez mais pessoas.

Empresas de trabalho temporário que ganham milhões apropriando-se do trabalho de milhares de precários e precárias. Grandes empresas (de telecomunicações, energia, etc) que preferem sub-contratar a parte mais importante da imagem de qualquer empresa nos dias de hoje: quem nos atende quando temos uma dúvida sobre um produto, sobre uma fatura, quando queremos aderir a algum serviço, ou quando o que está em risco é a nossa saúde.

Quem está do outro lado do telefone sempre que a televisão e a net falham, quando a luz falha ou temos dúvidas sobre a última fatura que nos chegou a casa são as Anas, os Josés, as Ritas que falei no início deste texto. Quem está do outro lado da linha é o estudante que tem que pagar propinas cada vez mais altas, é o ex-enfermeiro ou ex-professor que a determinada altura teve que desistir da carreira que sempre quis por questões de sobrevivência, é o jovem que até de estudar desistiu porque sabe que não pode pagar.

E quem está do outro lado da linha tem que se juntar e lutar por adquirir direitos que, no fundo, ainda não tem. É um caminho longo para que tal aconteça, o medo de poder ser despedido a qualquer altura é demasiado grande para quem depende daquele dinheiro ao fim do mês, e as empresas não se abstêm de utilizar esse medo a seu favor. Um dia o feitiço volta-se contra o feiticeiro, e no dia em que as pessoas liguem para linhas de apoio ao cliente, apoio técnico, etc, e não haja mais que silêncio, talvez a consciência sobre este problema cada vez mais grave da situação de quase escravatura moderna de milhares de trabalhadores e trabalhadoras leve a alguma vitória dos mesmos.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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