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O novo e o velho Tó Zé

António José Seguro decidiu usar o congresso do PS para demonstrar que estava disponível para governar o país! Sob o lema de “novo rumo” e repetindo vezes sem conta “Basta de austeridade”, o atual líder do PS parece até protagonizar um corte radical com aquilo que tem sido o seu discurso nos últimos 2 anos.

O velho Tó Zé enchia o peito de orgulho para dizer que o PS honra os compromissos que assume - entenda-se - cumprir o memorando da Troika! O velho Tó Zé chateava-se com Passos Coelho e fazia birra porque o primeiro-ministro não pedia a sua opinião - o velho Tó Zé queria participar no governo da Troika e a direita não o deixava! O velho Tó Zé não falava em governar, falava em oposição responsável e nas suas famosas “abstenções violentas”! O velho Tó Zé temia a oposição interna no PS e rezava para que Sócrates ficasse mais um tempinho lá em Paris, a ver se os “Socráticos” não o incomodavam muito!

Mas afinal quem é o novo Tó Zé?

Aos olhos mais desatentos esta nova personagem até parece alguém totalmente diferente, renascido das cinzas! Um novo governo saído de eleições expressando a vontade do povo! Uma maioria absoluta do PS! Um partido reunificado! Já chega de austeridade!!! Um novo rumo para o país!

Mas analisemos melhor o que diz este novo Tó Zé! Para António José Seguro já chega de austeridade! Quer isto dizer que está disposto a baixar os impostos das famílias? Vai refinanciar o SNS e a escola pública de acordo com as suas verdadeiras necessidades de sobrevivência? Vai reinstituir passes sociais e acabar com as taxas moderadoras nos hospitais? Vai repor os valores das indemnizações por despedimento? Vai suspender os despedimentos de mais de 50.000 funcionários públicos programados para este e para o próximo ano? A nada disto o novo Tó Zé dá resposta. E em política sabemos bem o que significa uma não resposta!

O novo Tó Zé defende um novo rumo para o país! Será que vai quebrar com o memorando da troika? Vai correr com a troika do nosso país? Se não o vai fazer, como pretende ele definir um novo rumo, enquanto por cá andarem aquelas 3 instituições que, perante o falhanço em toda a linha da sua política, mantêm-se coesas e inamovíveis na sua austeridade à bruta?

O novo Tó Zé diz que quer consensos e coligações de toda a espécie com toda a gente, mesmo em maioria absoluta! Vejamos, o que é ao certo uma coligação com a direita agressiva que quer impor ao país o seu empobrecimento generalizado e com a esquerda que quer rasgar o memorando da troika? Como funciona? Em que ficamos? Quem tem mais força no seu partido, os Socráticos e a maioria da sua direção que se posicionam a todo o momento para um bloco central ou um acordo com o CDS ou os ultra-minoritários como António Arnaut que defendem que uma coligação tem que ser feita à esquerda?

O novo Tó Zé não é assim tão diferente do velho. E isso está bem patente em duas passagens do seu discurso de encerramento: “os sacrifícios e a contenção orçamental não desaparecerão do vocabulário socialista” e “o melhor contributo para aumentar a confiança é honrar as promessas feitas”! O novo Tó Zé afinal quer manter a austeridade, quer manter o memorando da troika, quer manter as condições impagáveis da dívida portuguesa e seus juros. Em nenhuma das propostas enunciadas o novo Tó Zé deixa qualquer esperança aos Portugueses de que melhores dias virão, com o PS ou com a direita, com o bloco central ou com o PS-CDS! Na verdade o novo Tó Zé continua a fugir à esquerda como o diabo foge da cruz, sem novas ideias, sem novo rumo, o velho Tó Zé a que nos habituamos!

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