O novembro que traiu abril

porGabriel Coelho

22 de novembro 2025 - 18:58
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Abril foi o povo na rua; novembro, o regresso das instituições. Abril quis a utopia; novembro impôs o pragmatismo. Hoje, quando o discurso oficial tenta colocar ambos no mesmo altar, é preciso lembrar o que se perdeu. Abril não foi só uma data: foi um verbo.

Há datas que se cruzam na história como se fossem espelhos partidos. Abril, em Portugal, foi o mês da libertação; novembro, o mês da restauração da obediência. Entre ambos, correu o sangue e o medo. O sangue foi literal. O processo revolucionário não foi isento de violência. Confrontos armados entre fações militares, atentados terroristas da extrema-direita (como os da rede bombista do MDLP e da organização ELP), ataques a sedes de partidos de esquerda, e vítimas mortais de ambos os lados. Recorde-se, por exemplo, o assassinato do padre Max e de Maria de Lurdes Correia, progressistas de esquerda, mortos em 1976 porque ensinavam analfabetos a ler, porque ensinavam Direitos Humanos a quem sempre tinha sido explorado e abusado, num atentado atribuído à extrema-direita; os confrontos em Rio Maior e em outras zonas do Ribatejo; ou ainda as perseguições e ameaças dirigidas a dirigentes sindicais e camponeses durante a desmobilização do poder popular. O medo, por sua vez, foi o que atravessou toda a sociedade portuguesa. Medo da “anarquia”, como diziam as classes conservadoras, e medo da “reação”, como sentiam os trabalhadores e soldados revolucionários. Cada lado via no outro a possibilidade de um novo autoritarismo. E no meio, um país dividido entre a esperança e o pânico, entre a utopia e o colapso.

O 25 de Abril de 1974 nasceu do gesto audaz de militares e civis que recusaram a guerra colonial e o atraso imposto por quase meio século de ditadura. Foi uma revolução profundamente popular. Restituiu o direito à palavra, ao voto, à greve, à dignidade. Nacionalizaram-se bancos e grandes empresas, fixaram-se direitos laborais, distribuiu-se terra aos camponeses do Alentejo. O país respirava, pela primeira vez em décadas, o ar incerto mas vivo da liberdade. Mas a história de Portugal não é feita só de madrugadas. É também feita de crepúsculos. E o 25 de novembro de 1975, celebrado hoje por uns como a “salvação da democracia”, foi, para outros, o princípio da domesticação dessa liberdade.

A narrativa oficial diz que o “25 de novembro” evitou uma “deriva totalitária de esquerda”. O que raramente se explica é que o que estava em curso não era um golpe comunista, mas uma disputa de rumos dentro do próprio processo revolucionário. O chamado Verão Quente de 1975 (durante o qual eu nasci) foi, antes de mais, a expressão de um povo que ainda não aceitava voltar à lógica do mando e da obediência. As ocupações das terras, as fábricas geridas por trabalhadores, os bairros autogeridos, tudo isto eram experiências reais de democracia direta, de autogoverno popular.

O “novembro” que veio depois foi o ponto em que os ventos da revolução foram contidos. O general Ramalho Eanes e os setores moderados das Forças Armadas, com apoio tácito das potências ocidentais, especialmente dos Estados Unidos e da Alemanha Federal, puseram fim àquele movimento popular. Washington temia que Portugal se tornasse uma nova Cuba na Europa. A NATO não podia permitir um “mau exemplo” numa das suas margens atlânticas. O resultado foi sobretudo a ascensão dos partidos tradicionais. O PS, o PSD e o CDS consolidaram o poder político e passaram a dominar o sistema democrático português. Por outro lado, as forças revolucionárias de esquerda, como o Partido Comunista Português, a UDP ou os movimentos populares de base, foram sendo progressivamente marginalizadas, tanto política como mediaticamente. As nacionalizações foram gradualmente revertidas, o poder popular dissolvido, e o país entrou no trilho do capitalismo europeu, selado anos depois com a adesão à CEE. Não se trata de negar as conquistas democráticas de então (o pluralismo, o sufrágio universal, a liberdade de imprensa) mas de reconhecer o preço que se pagou: uma democracia amputada da sua vertente económica e social.

Abril sonhou com a emancipação humana; novembro garantiu a propriedade. Abril foi o povo na rua; novembro, o regresso das instituições. Abril quis a utopia; novembro impôs o pragmatismo.

Hoje, quando o discurso oficial tenta colocar ambos no mesmo altar, é preciso lembrar o que se perdeu. O direito à habitação continua por cumprir, o trabalho precário substituiu a promessa da dignidade, e a soberania nacional foi entregue à lógica dos mercados. O novembro que traiu abril não foi apenas o de 1975. É o novembro que se repete, todos os anos, de cada vez que a memória é reescrita para que a liberdade pareça um favor e não uma conquista.

Abril não foi só uma data: foi um verbo. E continua à espera de ser conjugado no presente.

Texto corrigido a 24 de novembro de 2025

Gabriel Coelho
Sobre o/a autor(a)

Gabriel Coelho

Professor de Matemática e Ciências Naturais, co-criador do podcast Quarteto dos Três Ateus Miguel e Gabriel
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