Está aqui

O mito da excepcionalidade tuga

Ainda que os trumpinhos lusos possam estar escondidos, vão-se mostrando cada vez mais descaradamente. Por isso, é tempo de combate.

António Guterres tem repetido declarações laudatórias sobre o carácter excepcional do povo português, agradecendo a um país em que, mesmo sob condições económicas adversas, o “populismo”, o ódio e o medo não se tornaram centrais no debate político. Por detrás de tal agradecimento vinca-se a ideia de que o não crescimento da extrema-direita é consequência natural da peculiaridade do carácter colectivo de um povo ameno e hospitaleiro por essência.

Claro que Guterres não é o único defensor de tal ideia e muito menos foi o primeiro. A história desta excepcionalidade vem de longe: o lusotropicalismo edificou a imagem de um colonialismo nacional que teria marcado pela diferença dada a sua bondade civilizadora, a abertura ao outro e o seu desejo de miscigenação; depois, durante a vaga de imigração dos anos oitenta e noventa do século XX, a tese de um país ontologicamente incapaz de ser racista somou-se-lhe; agora, a mesma tendência expressa-se através da conclusão apressada de que, ao mesmo tempo que a islamofobia e a redução dos refugiados à condição de bodes expiatórios dos problemas sociais se instalam por essa Europa fora, nós viveríamos num paraíso.

Aparentemente benigno, o elogio da tolerância é mais problemático do que parece. Em primeiro lugar porque nos pode deixar desarmados face aos perigos da intolerância. Porque se os portugueses são especiais e adversos naturalmente a esse tipo de manipulação então não valeria a pena fazer nada para a contrariar. É, portanto, preciso não cair na falácia simplista de tomar a não centralidade da intolerância no campo da disputa explicita feita nos palcos políticos oficiosos como prova cabal da tolerância lusa e da impossibilidade do seu crescimento futuro.

Em segundo lugar porque fazê-lo não é apenas negar a intolerância manifesta na sociedade por uma espécie de esquecimento beatífico mas implica uma operação activa de invisibilização de vários fenómenos que marcam aberta ou subterraneamente os nossos quotidianos. E basta não viver numa bolha protegida para nos encontrarmos permanentemente com esses ódios e medos. Nos espaços públicos informais de velha geração (os cafés) ou de nova geração (as redes sociais), apesar de não serem barómetro seguro do senso comum, mesmo o mais desatentamente branco ter-se-á já deparado com manifestações de intolerância aberta. Aliás, se outros exemplos não houvesse, dois acontecimentos recentes fizeram emergir ondas de comoção reaccionária bastante explícitas: “a crise dos refugiados” que deu lugar a uma primeira entrada em cena em Portugal das fábricas de mentiras internacionais e a morte de Mário Soares com o reavivar das velhas e entranhadas mentiras produzidas pelo fascismo.

No primeiro destes casos, apesar da situação geográfica do país não ser propícia (sem imigração islâmica forte e sem um fluxo de refugiados significativo) e de não ter existido nenhum atentado no território nacional, bastou o aumento das notícias sobre o fluxo de refugiados para que começassem a circular falsas notícias sobre crimes horríveis cometidos por refugiados, várias teorias conspiratórias sobre estes serem o cavalo de Troia de um islamismo terrorista ou até a sugestão de que se trataria de uma invasão pronta a esmagar a cultura europeia pela força dos seus números. Os instintos que proliferaram então são tudo menos um bom augúrio ou uma prova de força desse povo miticamente contrário à xenofobia.

No segundo caso, a morte de Mário Soares desenterrou velhos boatos: teria pisado uma bandeira nacional numa manifestação e quereria mandar matar todos os colonos portugueses durante o processo de descolonização. Parte deste arsenal do tempo da velha senhora pouco mascara o saudosismo colonialista, o ódio à democracia e ao 25 de Abril e, por mais que tenha sido desmentido, persistiu subterraneamente. A novidade é que, se antes existia no boca a boca, agora tomou nova forma, assumindo o nome nas redes sociais, públicas e publicadas.

Porém, perante estes comentários (e não se trata aqui de avaliar sequer a sua disseminação ou influência política real) é interessante notar que surgiu a vontade ou necessidade imediata de reduzir esse ódio (e não se trata aqui também de medir o outro fenómeno paralelo de indiferença que se parece ter contraposto ao frenesim político e mediática) identificando-o exclusivamente com três grupos circunscritos, salazaristas, colonialistas e comunistas, derrotados politicamente por Soares que consumiriam e reproduziriam estas mentiras e rumores. O argumento do “folclore” (de que seriam restos ineficazes de passados políticos não resolvidos) é ainda uma forma de permanecer no país do mito e não olha para o que isto indica sobre a crise da política. Porque, celebrado como “pai da democracia”, Soares parecia ser sido visto nos últimos tempos por muitos apenas como exemplo acabado do “político”. Daí que o reducionismo face ao ódio que suscitava entre algumas camadas necessite de passar por cima do boato central: o do seu suposto enriquecimento à custa da política. O ataque mais insidioso e persistente foi para supostamente desmascarar a motivação intrinsecamente “tachista” da política, feito em nome de um povo que se opõe à figura do “político” enquanto o inimigo poderoso que o patrão não pode ser.

De qualquer forma, é fundamental saber ler os sinais que são emitidos a partir de outros lugares de enunciação já que a disputa hegemónica não se joga apenas à superfície do debate político e mediático. Neste sentido, a esquerda tem como tarefa não só o trabalho desigual e ingrato de desmontar mentiras e deturpações alarmistas com factos e argumentos mas também de responder às emoções, às angústias que podem alimentar as fascizações: a perda de um sentimento de segurança económica, a perda de sentido de democracia no tempo da ditadura dos mercados financeiros, a perda da dimensão colectiva dos sujeitos auto-construídos e da consciência de classe.

Quem preferir sonhar com excepcionalidades e viver no registo do fado da passividade pode muito bem acabar acordando no meio de estados de excepção permanentes. Assim aconteceu a esquerdas, por exemplo, em França, onde a excepcionalidade era a do país da resistência, das revoluções populares e da educação republicana, e nos EUA, onde a excepcionalidade era a do país de emigrantes onde qualquer um poderia fazer fortuna desde que trabalhe e suficiente. Nenhuma excepcionalidade auto-proclamada sobreviveu. A excepcionalidade é uma táctica de menorização e de ocultação com a qual se têm dado bem o ódio e medo, as forças obscuras perenes dos fascismos. Nas condições sociais e políticas certas, não há excepcionalidade que nos valha. E ainda que os trumpinhos lusos possam estar escondidos, vão-se mostrando cada vez mais descaradamente. Por isso, é tempo de combate.

Sobre o/a autor(a)

Professor.
Comentários (2)