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O lamaçal que veio para ficar

Vários episódios recentes ilustram como este lamaçal mobiliza sentimentos nascidos na direita (direito individual de recusar as regras da saúde pública) e na esquerda (desconfiança em relação à Big Pharma).

A pequena trupe que insultou Ferro Rodrigues, enquanto almoçava em família, é reveladora de esquinas do nosso país. A técnica usada merece atenção: de todos os tiques em que a trupe abundou, desde a senhora apoplética ao megafone até às ameaças valentaças, o mais notável é que foram os próprios a divulgar orgulhosamente a imagem da façanha. Fornecem assim às autoridades judiciais a prova do feito, mas era isso mesmo que pretendiam, pois cada participante na gritaria estava a encenar-se a si próprio para as redes sociais. O gesto era calculado, não só para ali incomodar o presidente do Parlamento mas para o atazanar pelos tempos fora em partilhas de Facebook. Esta momice nas redes sociais funciona como um meneio efémero numa sala de espelhos, reproduzindo-se infinitamente, e é essa avalancha que é desejada.

O efeito de espelho infinito é a chave da estratégia do lamaçal. Instiga uma transformação dos modos de representação social, pois cria identidades específicas (desde o influencer, mais bacoco, até ao incendiário das emissões ao vivo ou aos exércitos de perfis falsos e às máquinas que multiplicam as suas diatribes), em que o superlativo é a única estratégia que prende a atenção, constituindo assim uma engenharia de ódios, mas também inventa formas de comunicação que atravessam as tradições culturais, e são por isso eficazes. Vários episódios recentes ilustram como este lamaçal mobiliza sentimentos nascidos na direita (o direito individual de recusar as regras da saúde pública) e na esquerda (a desconfiança em relação à Big Pharma ou até tantas das teorias da conspiração) e, por isso, vemos no movimento antivacinas pessoas que nos surpreendem. Essas misturas de sentimentos são evidentes no caso dos ‘coletes amarelos’ em França e, não por acaso, houve a tentativa de os reproduzir entre nós. Apesar desse primeiro falhanço e até da extravagância do antivacinismo em Portugal, é essa política que agora revemos na malta que desembocou no restaurante de Ferro Rodrigues.

Parece pouco e é ainda pouco, mas estas combinações tóxicas tornaram-se uma moda invasiva que empossa uma nova estirpe de figurões. São os profetas “antissistema”. O seu herói atual é Bolsonaro, o “antissistema” que manobra para um golpe militar, a ser feito pela instituição que é o sistema por natureza, enquanto explica candidamente que não aceita que mentiras sejam banidas das redes sociais, dado que “fake news fazem parte de nossa vida. Quem nunca contou uma mentirinha para a namorada? Não precisamos regular”, como dizia há dois dias. Trump, o primeiro iluminado desta saga, propunha mezinhas para curar a pandemia, sugeriu mesmo que lavássemos os interiores com lixívia e teve a segunda maior votação de todas as eleições presidenciais norte-americanas.

Dir-se-á que a trupe no restaurante de Ferro Rodrigues é uma farândola, comparada com estes mestres. Será. No entanto, aí estão a técnica, os meios e a vontade febril de brilhar nas redes de lama. Já há para isso um partido, ou dois, ou três. É assim que se forma gente cujo limite é o seu próprio espelho e que está disposta a tudo para impor a lei da selva.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 17 de setembro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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