Quando Trump ordenou um golpe militar na Venezuela, escrevi um texto em que identificava as idiossincrasias do imperialismo de Trump. Um imperialismo que importa as táticas de extorsão dos gangsters, e que a administração estadunidense manteve no conflito com o Irão.
Não se pode dizer que a manutenção dessas táticas tenha tido sucesso neste novo conflito. Trump entrou no Irão sem objetivo aparente. Só Israel ganhou, ao usar o pretexto para bombardear o Líbano e tentar expandir a fronteira a norte. O presidente estadunidense balbuciou vários motivos e disse tudo e o seu contrário.
Sejamos generosos e digamos que se trata de uma tática de negociação, e não de um processo de crescente desligamento pessoal de Trump com a realidade. Mesmo assim, não teve efeito para além de confundir os líderes europeus, que tiveram de se contorcer para continuar a desculpar a narrativa dos Estados Unidos da América.
Primeiro, Trump demonstrou a sua força ao bombardear intensivamente o Irão e matando Khamenei. Estava à espera de negociar e iniciar a sua extorsão, mas o regime iraniano imitou precisamente a sua tática: bloqueou o estreito de Ormuz, bombardeou infraestruturas energéticas nos países vizinhos e preparou-se também para negociar.
O impasse manteve-se e Trump foi buscar mais uma jogada ao crime organizado: percebeu que as suas palavras dirigiam os mercados e que conseguia imitar a lógica dos “combates viciados”. Quando queria que os mercados subissem, falava de paz. Quando queria que os mercados descessem, falava de guerra. E nessas jogadas, centenas fizeram milhões. E foi ele que o disse explicitamente.
Quando percebeu que não havia desbloqueio do estreito de Ormuz, voltou à chantagem e à extorsão. Primeiro mostrou a totalidade da sua loucura ao dizer: “Na terça-feira será o Dia da Central Elétrica e o Dia da Ponte, tudo num só, no Irão. Abram a porra do estreito, seus malucos, ou vão viver no inferno — VÃO VER!”.
Na segunda-feira ao final da tarde escalou ainda mais, dizendo que “uma civilização inteira vai morrer esta noite”. Pode ter sido o toque final no processo para a negociação de um cessar-fogo, mas a verdade é que só conseguiu demonstrar que o controlo do estreito de Ormuz por parte do Irão é uma fragilidade brutal para os Estados Unidos da América. Entretanto, o regime iraniano também dita os termos do cessar-fogo e de um possível acordo de paz.
Agora, bloqueia o estreito faz bluff com a destruição mútua: "se eu não posso ter petróleo, vocês também não". Mas o imperialismo gangster de Trump fraquejou no Irão. Só conseguiu fragilizar-se internamente, mostrar a vulnerabilidade dos EUA face ao bloqueio do estreito de Ormuz, e fortalecer o regime iraniano, fragilizando a oposição democrática que estava mais forte do que nunca. E Israel continua a rir, matando no Líbano e expandindo o seu território à custa do presidente estadunidense.