Fernando Ulrich diz que pode algum dia ter o infortúnio de perder tudo e ir morar na rua: "Se você andar aí na rua e infelizmente encontramos pessoas que são sem-abrigo, isso não lhe pode acontecer a si ou a mim porquê? Isso também nos pode acontecer".
Alguém acredita nisto? Ulrich, um sem-abrigo?
É claro que, teoricamente, tudo pode acontecer. Segundo a Nasa, o Asteroide 2007 VK184 tem 0,057000000% de possibilidades de atingir a Terra em 3 de junho de 2048, quando Ulrich terá 95 anos. Eu diria que as possibilidades de o banqueiro ser nesse ano um sem-abrigo são menores do que as de o asteroide se chocar com o nosso planeta.
Pois se nem o Oliveira Costa é sem-abrigo – pelo contrário, como mostrou a SIC, continua a morar numa zona nobre de Lisboa e dá o seu passeiozinho matinal todos os dias.
Ulrich ficou muito ofendido quando Ana Drago lhe recordou que "o senhor, que tem um salário mensal de 60 mil euros", não sabe como vivem as pessoas. Esbravejou com a deputada bloquista por se preocupar com a sua remuneração “e não com a de um treinador do Benfica que ganha não sei quantas vezes mais do que eu?” Bom, a verdade é que o Jorge Jesus também não tem muitas hipóteses de vir a aumentar o número de sem-abrigo, mas o que é que isso tem a ver? A questão levantada por Ana Drago é perfeitamente pertinente: quem ganha 60 mil euros por mês nunca vai ser um sem-abrigo, nem tem a mais pálida ideia do que passam as pessoas forçadas a viver na rua. Logo, o que Ulrich disse é pura demagogia. Mais: é grotesco.
O banqueiro do BPI resolveu contra-atacar a deputada dizendo: "Com as suas declarações, aquilo para que a senhora deputada está a contribuir é para uma sociedade mais egoísta. É que ao contrário da senhora deputada, eu consigo criar postos de trabalho e a senhora não".
Flagrante exemplo da novilíngua que Passos Coelho pôs na moda e que consiste em dizer o contrário do que se pensa e se faz. Ulrich, pelos vistos, é por uma sociedade “altruísta” – a sociedade em que ele ganha 60 mil por mês e os sem-abrigo dificilmente conseguirão o RSI. Mas o banqueiro diz que tem todo o respeito pelos sem-abrigo. Pois.
Ulrich “cria postos de trabalho”. A sério? No mínimo, o que podemos dizer é que já deve ter-se esquecido do que é isso. Porque o BPI fechou 12 balcões e acabou com 258 postos de trabalho em 2012. De 2008 até 2012 reduziu o número de trabalhadores do seu banco de 7.767 para 6.400, menos 17,6%. Ah, já me esquecia: o BPI recentemente recebeu 1.500 milhões de euros de dinheiros públicos no processo de recapitalização da banca.
Ulrich diz que não recebe lições de sensibilidade. “O que tinha a aprender, aprendi em casa com a minha família, na escola e na igreja católica”. Por isso, diz que não tem de pedir desculpas a ninguém. A arrogância é fácil de explicar: Ulrich não tem de se submeter a escrutínio popular algum, ao contrário dos deputados. O banqueiro pode arrotar pesporrência sempre que quiser, sem consequências.
Já quanto à sua formação em sensibilidade, ela tem sem dúvida muitas falhas. Pelo menos a aprendizagem na igreja católica. Porque, diz a Bíblia, “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. (Mateus 19:23-24). Eu diria que é mais fácil o Asteróide 2007 VK184 chocar-se com a Terra em 2048. Ou o Ulrich oferecer-se para ir, em pessoa, estrelar um vídeo dos Bandex.