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O grande conspirador está de vigília

A presença do QAnon na campanha presidencial norte-americana é muito visível. O que quer que aconteça em 10 dias, o trumpismo sobreviverá a Trump através de bizarrias como estas.

Se alguém lhe disser que Merkel é neta de Hitler, que Kim Jong-un era um agente da CIA e foi substituído por um duplo, que o senador John McCain foi executado, não desconfie. Vem tudo na internet e é sugerido em mensagens crípticas, que são uma novela de conspirações escritas por um tal Q, que se apresenta como alguém com acesso ao mais alto código de segurança dos EUA, que tem o símbolo Q. O seu sucesso mostra-nos como se pode criar uma base de massas da extrema-direita.

O satanismo mora no seu bairro

A saga começou com uma fábula muito útil na eleição de Trump, o Pizzagate, um boato sobre políticos democratas que supostamente dirigiam uma rede pedófila a partir das catacumbas da pizaria Comet Ping Pong, em Washington. Era uma das suculentas fake news que animaram essa reta final da campanha de 2016. Percebendo este sucesso, Q, quem quer que seja, começou a publicar desde o ano seguinte mensagens codificadas que revelam supostas informações confidenciais sobre perigos que o mundo enfrenta. É uma espécie de história paralela, que refere a existência de um “deep state” que assumiu o controlo há décadas, uma teoria abrangente que pretende tudo explicar, do Pizzagate ao ISIS ou ao assassinato de Kennedy.

No momento presente, a mais candente ameaça seria a conspiração de pedófilos e satânicos que dirigem uma operação global de tráfico de crianças para exploração sexual. E como o mundo que, como sabemos, começa nos Estados Unidos, que vivem sob a ameaça de um golpe de Estado dirigido por estes criminosos, está em guerra, nada mais tranquilizante do que saber que o Presidente Trump é quem vai deter esta cáfila malfeitora. Trump tem, pois, uma missão (secreta) da maior importância: livrar o mundo de pedófilos, canibais e satânicos. Ora, como qualquer conspirador sabe, se a uma ameaça delirante se juntar um conjunto de nomes famosos, a atenção está garantida. Por isso o QAnon afiança que nesta rede de tráfico estão envolvidas várias celebridades de Hollywood, o sempre presente George Soros e políticos como Hillary Clinton e Obama. Na Europa, é Merkel quem dirigiria esta rede de traficantes de crianças. Mas, não desesperemos, está já em preparação uma operação militar, “Storm”, uma espécie de Juízo Final, que limpará o mundo destes agentes do mal e os enviará para os calabouços de Guantánamo, onde serão executados. E o sol brilhará, por fim, com a tomada do poder pelos militares, nessa grande alvorada redentora.

A presença do QAnon na campanha presidencial norte-americana é muito visível. O que quer que aconteça em 10 dias, o trumpismo sobreviverá a Trump através de bizarrias como estas, mas também pelo seu novo peso institucional. Pelo menos 19 candidatos republicanos ao Congresso são partidários do QAnon, sendo que duas, Marjorie Greene, da Geórgia, e Lauren Boebert, do Colorado, podem vir a ser eleitas. Trump, aliás, não lhes poupa elogios: são as “estrelas do partido republicano”, mesmo que o FBI tenha classificado o QAnon como a mais grave ameaça terrorista doméstica.

QEuropa

O movimento ganha adeptos além-fronteiras, tendo uma forte base na Alemanha, com 200 mil apoiantes. A situação pandémica veio revelar-se propícia ao seu discurso conspirativo, tendo o QAnonismo proliferado e dado origem aos movimentos “pela verdade”, que se multiplicam e que procuram mobilizar o desgaste social: Médicos pela Verdade, Advogados pela Verdade, ou outros. A receita é repetida: há uma verdade não revelada — uma conspiração — que estes arautos vêm desvelar.

Lembra-se da “manifestação” contra o uso de máscaras em Lisboa, em setembro passado? As intervenções que nela se ouviram são exemplos de QAnonismo lusitano. Verdade revelada 1: “Claro que aquelas múmias vivem há muito tempo. E sabem porquê? Porque são canibais e se alimentam de crianças!” Verdade revelada 2: “Toda a realeza, toda a elite, CEO… Ninguém sobe na vida se não comer criancinhas ao pequeno-almoço.” Claro que as malfeitorias que desaguam no canibalismo e no abuso de menores têm lastro, não acontecem por acaso, são antes o resultado de uma continuada política do mal, como provado pelo antecedente: “O aborto já está legalizado até aos nove meses, para poderem esquartejar os bebés. Não só para os comer vivos na elite, mas na parte laboratorial, onde eles não podem assumir que são satânicos.”

Está na net, então é verdade

Algumas redes, como o YouTube, o Facebook e o Twitter, decidiram remover conteúdos relacionados com este movimento, por apelarem declaradamente ao ódio e à violência. Mas a maior inquietação perante tudo isto é a de tentar perceber o que faz com que as pessoas acreditem nestas bizarrias e por elas se mobilizem.

É verdade que as redes sociais facilitaram a criação de comunidades extravagantes e ampliaram a sua repercussão. Mas os jornais, a rádio ou a televisão já o tinham permitido no passado. No entanto, há duas diferenças entre a internet e esses meios de comunicação. A primeira é que os anteriores eram intermediados, o que permite impor regras e sanções contra o abuso. A segunda é que a ilusão da autonomia pessoal e o mecanismo da polarização da atenção recompensam a violência ou a cloaca. É isso que multiplica estes canais e dá forma a clubes de extravagância que são ungidos pela autoridade de estarem na internet, o mesmo espaço usado para comunicação normal, ou para diversão, ou para a curiosidade. Todas as emoções se contaminam desta forma e todas podem ser instrumentalizadas.

Algumas das consequências já as conhecemos: a recusa da ciência e a proliferação de diversos negacionismos (terraplanismo, criacionismo, movimento antivacinas ou negação das alterações climáticas), que são formas de negar a realidade e até de escapar ao desconforto da vida. O QAnon é somente a voz política de um mundo paralelo que sabe falar a linguagem dos medos de muitas pessoas. É melhor levarmos a sério esta lenda. Vai ser assim que se vão constituir os exércitos das sombras. O anonimato da internet é a farda destas milícias da extrema-direita.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 24 de outubro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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