Como se explica a alguém que nasce no privilégio que as greves são feitas por quem não o tem? Como se explica a este Governo que o lucro deveria também chegar a quem produz?
Talvez alguém precise de fazer um desenho ao deputado Hugo Soares sobre o que é uma greve geral, porque, pelos vistos, anda confuso.
Por detrás do discurso sonso e cheio de ares de inocência, o Governo decidiu brindar-nos com um pacote laboral que nada tem de neutro. É um programa político ao serviço do patronato, feito para fragilizar quem trabalha e fortalecer quem lucra. Chamam-lhe “reforma laboral”, mas, na verdade, é um manual de exploração.
O novo pacote do Governo de direita não corrige injustiças: legaliza-as, sob o disfarce da “modernização”, abre caminho para despedir mais facilmente, pagar menos e calar quem se queixa. Modernização e equilíbrio para quem? Neste pacote, nem uma palavra sobre subida de salários. Está tudo dito. O que está em curso é a maior ofensiva contra os trabalhadores desde a troika.
Entre as medidas apresentadas, destacam-se:
- a facilitação dos despedimentos e a redução das compensações devidas;
- o alargamento dos contratos a prazo e dos períodos experimentais;
- a revisão das baixas médicas e do teletrabalho, com menos proteção e mais controlo patronal;
- e o enfraquecimento da contratação coletiva, que deixa os sindicatos à porta da fábrica.
A história repete-se. Sempre que a direita fala em “flexibilizar”, o verbo que se conjuga é despedir. E sempre que prometem “libertar a economia”, é sempre o mesmo que aperta o cinto: o povo!
Quem se levanta às seis, quem ensina, quem cuida, quem produz, vê, uma vez mais, os seus direitos reduzidos a rodapés legislativos. E ainda temos de ouvir que “é pelo bem da economia” ou, pior, que “temos de nos habituar à precariedade”, como disse o candidato presidencial, o senhor Cotrim.
Não é pelo bem da economia. É pelo bem dos vossos bolsos. Bolsos esses que gozam de excelente saúde, uma saúde que os nossos nunca alcançarão. E ainda têm o descaramento de nos pedir que nos habituemos a isso?
Mas não, meus senhores. O trabalho não é descartável. O povo não é uma variável económica. E a dignidade não entra em saldo, nem agora, nem nunca.
Una-se o povo e venha a greve, porque o cansaço já grita. E quando este cansaço virar consciência, o poder mudará de lado. Porque, sim, o povo é (ainda) quem mais ordena. A esquerda, mesmo fragmentada e fragilizada, tem o dever de erguer a voz e dizer “NÃO”. De estar ao lado dos trabalhadores. De não os deixar sozinhos em tempos tão obscuros.
Cortam-nos a dignidade? Devolveremos o golpe com democracia, união e coragem. O povo unido jamais será vencido!