Está aqui

O futuro reescreve-se nas ruas

Um primeiro-ministro que falha sucessivamente todas as metas propostas, que não o reconhece e não tem a hombridade de se demitir, tem de ser afastado.

“Passos Coelho quer responsabilização civil e criminal por maus resultados da economia.” Esta foi a capa de vários jornais em Novembro de 2010.

O atual Primeiro-Ministro, então candidato, afirmava que “não se pode permitir que os responsáveis pelos maus resultados andem sempre de espinha direita, como se não fosse nada com eles”. Passos Coelho revelava através das suas palavras e em todo o seu esplendor, a sua falta de carácter e a sua falta de seriedade. O insucesso da sua política de austeridade mostra hoje que este é um homem sem espinha dorsal. Um primeiro-ministro que coloca à frente dos compromissos que assumiu com os portugueses os compromissos com os 'mercados', com a Troika e com as instituições credoras, não merece continuar a governar. Um primeiro-ministro que mente para chegar ao poder e que empobrece propositadamente o país, não tem lugar aqui. Um primeiro-ministro que falha sucessivamente todas as metas propostas, que não o reconhece e não tem a hombridade de se demitir, tem de ser afastado.

Apesar de toda a austeridade, de todos os sacrifícios, dos aumentos de impostos, do desemprego galopante, das insolvências, das falências, da fome, do apertar o cinto, dos cortes cegos na Educação, na Saúde, na Segurança Social, a dívida não pára de crescer. As estimativas do FMI têm sido consecutivamente ultrapassadas pela realidade. Previam para 2012 um aumento da dívida para 116,3% do PIB e para 2014, um aumento para 118,1%. O boletim estatístico do Banco de Portugal revelava que no final dos primeiros seis meses de 2012, a dívida do estado português atingia os 117% do Produto Interno Bruto correspondendo a 198,8 mil milhões de euros. A dívida continuou a crescer e em 2013 atingiu os 209 mil milhões de euros o que representa 126% do PIB. Desde o início da intervenção da troika a dívida pública já cresceu mais de 30 mil milhões de euros. A divida cresce todos os dias, a cada hora que passa. O falhanço é inegável. O presente e o futuro estão hipotecados aos mercados.

A submissão doentia à troika e à senhora Merkel, a recusa em negociar a dívida, nos montantes e nos juros, a recusa em estimular a economia através do investimento público e da criação de emprego, mostram bem que os interesses que defendem não são os interesses do portugueses. A insistência neste caminho revela claramente a falta de verdade das palavras do Passos Coelho de 2010: “aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa também têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus atos e pelas suas ações”

Não nutro qualquer esperança na coerência e na honestidade de Pedro Passos Coelho, nem lhe reconheço a humildade de admitir a sua própria incompetência e cumprir com a sua palavra. Também já percebemos que não podemos contar com o Presidente-bibelot. Um Presidente da República que perante a decisão de inconstitucionalidade do Orçamento de Estado, pelo segundo ano consecutivo, faz tábua rasa do juramento que prestou de defesa da Constituição da República e do povo português e reafirma a sua confiança num governo que conduz Portugal a uma crise humanitária sem precedentes, não é mais do que um mero bibelot da República Portuguesa. Como Presidente não vale absolutamente nada. Não serve para nada.

Resta-nos a integridade, a vontade e a garra dos portugueses. Só os portugueses podem dizer 'Basta!' Só os portugueses podem oferecer a Passos Coelho o que ele próprio apregoava há menos de dois anos: responsabilização criminal. Só os portugueses podem mandar de volta aos seus países os senhores do FMI. Só os portugueses podem resgatar Portugal. Só os portugueses podem reescrever o seu futuro. E o futuro reescreve-se nas ruas. Assim o provam os milhões de portugueses que já saíram à rua, nas manifestações do 2 de Março, do 15 Setembro e do passado 25 de Abril. Amanhã, no 1º de Maio, os portugueses reescreverão mais um pouco do futuro de Portugal. Vem reescrever o futuro também!

Sobre o/a autor(a)

Feminista e ativista. Socióloga.
(...)