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O fim e a permanência

O tempo que está aí exige muito mais do que rotinas ou intervenções na margem. Exige recusa da auto-contenção na preparação do tempo em que a Europa nos vai querer de novo encostar ao espartilho orçamental. E a esses desafios a esquerda não falta.

Marques Mendes veio anunciar no domingo o fim da Geringonça. O fim formal, disse ele. Demorou a passar do real ao formal – o mesmo Marques Mendes, com a mesma certeza, tinha anunciado o “princípio do fim da Geringonça” em 2016, quando das negociações do orçamento para o ano seguinte. Cinco anos para passar do princípio do fim ao fim do fim. Tudo análise política objetiva, claro está.

O fim do fim foi, para o analista, o voto contra do Bloco de Esquerda no orçamento para 2021. E o analista é seguido admiradamente por muitos fazedores de opinião facebookianos. Para Marques Mendes e os seus seguidores, a proposta do Bloco de Esquerda, depois das eleições de 2019, para que se negociasse um acordo de legislatura que vinculasse as forças parlamentares de esquerda não existiu. Para Marques Mendes e os seus seguidores, a resposta do PS – recusa de um tal acordo e negociação lei a lei, orçamento a orçamento – não teve importância nenhuma para esta história. Bastou-lhes que alguns dirigentes do PS tenham dito que continuavam apostados em negociar à esquerda ao mesmo tempo que celebravam acordos “de regime” com o PSD, para acreditarem que a coisa se mantinha sãzinha e escorreita. Gente confiante é assim.

Para estes instantaneistas, que reduzem tudo a um momento formal, o conteúdo concreto das negociações do orçamento é o que menos importa. Não lhes interessa que o orçamento proposto e aprovado tenha espelhado a escolha do que Centeno chamou “intervenções na margem” – forma tecnocrática de dizer correções extraordinárias e transitórias do business as usual – em vez de ousar alterar insuficiências estruturais na saúde, no trabalho ou nas políticas sociais. Não querem saber que todas as propostas que o Bloco de Esquerda apresentou com essa ambição de mudança estrutural tenham sido rejeitadas pelo PS em convergência com a direita e a extrema direita.

Aquilo a que não dão relevo é seguramente o mais importante. O tempo que está aí exige muito mais do que rotinas ou intervenções na margem. Exige recusa da auto-contenção na preparação do tempo em que a Europa nos vai querer de novo encostar ao espartilho orçamental. E a esses desafios a esquerda não falta.

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 1 de dezembro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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