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O fim dos "boys"

O passado de Passos e Seguro enquanto líderes das jotas dos PSD e PS não é desprezível.

Nat King Cole e Ella Fitzgerald passaram a vida a cantar-nos o "sempre que dizemos adeus, morro um pouco" de Cole Porter. No adeus à virgem ou ao poder, o impoluto que atire a primeira pedra.

É indesmentível a nossa quota-parte de culpa ao termos assistido impávidos e serenos à ascensão dos "boys" dos partidos, os carreiristas profissionais, os "apparatchiks" das juventudes partidárias. Fomos pouco ou nada analíticos perante muitos desses "controleiros" por confundirmos, tantas vezes, um quadro de partido com uma pessoa com sólida formação política. Olhando para Passos Coelho e António José Seguro, os méritos pessoais não escondem o futuro imediato: ambos estão condenados. E com eles, pelo seu exemplo, o futuro carreirista das juventudes partidárias. Eles (ainda) vivem como no filme de John Carpenter. Mas tremem.

O passado de Passos e Seguro enquanto líderes das jotas dos PSD e PS não é desprezível. Durante anos a fio, perceberam com quantas linhas se cose um partido, desmultiplicaram-se em novelos de lã e fios da navalha, percorreram o país numa espécie de Queima das Fitas itinerante. Evitando as barracas, foram uma espécie de saltimbancos no ciclo preparatório, na antecâmara das campanhas eleitorais internas que os fariam controlar e ganhar o partido e, no caso de Passos Coelho, somar o partido ao país (algo a que Seguro já não vai a tempo). Aos dias de hoje é quase certo que ambos sairão de cena nas próximas eleições legislativas, perante o contexto e o que se avizinha (de Costa a Costa, do PS de hoje ao PS de amanhã) e tendo em conta os resultados eleitorais das eleições europeias. É o fracasso indesmentível dos dois "boys", perfeitamente capazes aos olhos da militância interna mas insuficientes para mudar uma vírgula ao discurso político vigente, inaptos para olhar de frente a realidade de um país abstencionista, divorciado da classe política e ávido de novas soluções. Não é o fim da ideologia, espero. É o fim destes ideólogos de cartão, sem ideologia mas reféns de todos os interesses.

A realidade encarrega-se de nos confrontar com o mundo que criámos. Os partidos do "arco da governação" definharam com as suas políticas e lideranças, esperando por um D. Sebastião que se vislumbre na névoa e dê à costa. Está a chegar o primeiro e o último: António Costa, de seu nome. Depois dele, qual "Obama de latitude Lisboa/Galo de Barcelos", mais ninguém. O seu hipotético fracasso, nas primárias ou no país, será a ruína dos partidos da governação e o fim do bipartidarismo, tal e qual o conhecemos. Neste momento é inegável a força e a importância de pessoas que cresceram fora do processo normal e padronizado das juventudes partidárias. Exemplos são muitos e diversos, independentemente dos apoios partidários a que lançam mão no momento das eleições. Exemplos tão distantes como a largura de banda que separa Rui Moreira de Marinho e Pinto. Ou a que separava Manuel Sérgio de Fernando Nobre. A diferença é que os dois primeiros chegaram para ficar e isso diz bem da relevância das pessoas quando a maioria dos partidos não põe as pessoas primeiro.

Sem os partidos despontaria uma tábua rasa que condenaria o país ao esquecimento e ao livre saque. Mas é inegável que este Bloqueio Central dos negócios e da finança (a que o CDS sempre se associou, em cata-vento, como dama sonsa) está em perda e em ruptura com a sociedade ao permitir que pequenos bandos criminosos o invadissem para intenso proveito próprio. E é a este contexto de descrença nos partidos do "arco da governação" e à condenação do populismo mais charlatão e extremista emergente em toda a Europa que os partidos "não tradicionais" deverão responder. Não com divisões ou sectarismos, antes com visão e sentido de Estado. Terão, em última análise, que provocar o seu próprio estado de sítio, a sua própria independência. Caso António Costa passe a tinta primária nas paredes do PS, tentará ganhar o país e o voto útil, aliando Rui Tavares e Marinho e Pinto numa sonata (ou o CDS para uma "vendetta" ao PSD), esvaziando o voto ideológico e de protesto da CDU e do BE. Saibam estes partidos e aquelas pessoas responder pela confluência, pelo diálogo e por aquilo que mais os aproxima. Que, aliás, sempre foi muito mais do que aquilo que os separou. Nunca tiveram ou foram "boys" e, como tal, estão longe de poder declarar que acabou ou condenar-se à autoflagelação por mais um ciclo de vida. Seria um desperdício ou o seu fim.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” de 3 de junho de 2014

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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