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O exemplo francês

O movimento grevista ultrapassou a dimensão ritual para perturbar efectivamente o funcionamento “normal” do país.

Em França, os protestos contra o aumento da idade da reforma e a austeridade começam a inquietar não apenas os governantes, mas até aqueles fazedores de opinião que são tradicionalmente hostis ao Governo. O movimento grevista ultrapassou a dimensão ritual para perturbar efectivamente o funcionamento “normal” do país. Começa a ser uma ameaça séria ao poder. Mas mais: nas greves e manifestações confluem muitos protagonistas. Não se trata apenas de um movimento sindical, mas de um movimento social amplo, com presença de desempregados, imigrantes e onde os estudantes têm tido um papel muito relevante. No último dia de greve, mais de 1.200 liceus fecharam e centenas de universidades também estiveram bloqueadas. Todo o movimento tem presença nas escolas nas empresas, nos bairros, nas ruas. Os jovens enchem as manifestações. E talvez isso nos dê pistas para o próximo dia 24 de Novembro.

Também em Portugal, a greve geral é a resposta dos de baixo à austeridade selectiva, à brutalidade contra os salários de quem trabalha, à razia nas prestações sociais que empobrece dramaticamente o país, ao abandono dos desempregados, ao cerco aos estudantes, à fragilização da juventude, à precarização generalizada, à imposição de um sofrimento social sem precedentes. É o momento de tomarmos a palavra: os desempregados, precários, estudantes, desemprecários, intermitentes, imigrantes, os que são atirados para a pobreza, todos e todas têm uma oportunidade única para juntar as suas razões. Se tivermos essa audácia, faremos uma grande greve para paralisar o país.

Esta semana, os estudantes do ensino superior ficaram finalmente a saber as regras técnicas das suas bolsas de estudo. Como acontece com todas as prestações sociais, os truques para inflacionar os rendimentos das famílias e para calcular a sua capitação (com famílias de 5 pessoas a contarem como famílias de 3,9 pessoas, por exemplo) significam que alguns milhares irão perder o pequeno apoio que tinham para estudar. Há poucas semanas, no Porto, o Ministro da Ciência e do Ensino Superior dizia que as propinas eram “insignificantes” se comparadas com o que eram no seu tempo. Veio-se a saber, entretanto, que há escolas públicas, como o ISCTE, em que as propinas de um mestrado chegam aos 20 mil euros e que há até pós-graduações cuja propina ascende (numa instituição do Estado!) a 37 mil euros. No secundário, são cortados os apoios ao transporte e o passe. Por outro lado, o aumento de impostos significa um corte efectivo no salário. E até o salário mínimo, que não permite aos trabalhadores saírem do limiar de pobreza, não chegará afinal sequer aos 500 euros. Enquanto vemos tudo isto ser apresentado como uma inevitabilidade, os bancos continuam a não pagar o mesmo que qualquer pequena empresa e a fazer 4 milhões de euros de lucro por dia.

No dia 24, são todas as pessoas que são chamadas a dizer de sua justiça. Não faltam por isso razões. Quem não pára, consente.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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