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O estado das coisas

Muitos e muitas não saíram do estado de medo em que a chantagem sobre a troika os pôs. Porque não é fácil fazer passar a alternativa e pensar diferente. Porque não é fácil deixar de se ter medo. Mas o estado das coisas assim o exige.

As coisas não andam famosas, realmente. E já agora, confusas! Desde há uns anos a esta parte que só se fala em diminuir o Estado e na necessidade de deixar tudo nas mãos do mercado. Porque só assim é que os serviços e a economia funcionam, porque só assim os cidadãos e cidadãs podem gozar por inteiro da liberdade de escolha, etc.

O Estado e a sua grande máquina são os culpados de tanto desemprego, de tanta crise; porque gastam muito dinheiro. Eu diria, antes, que o dinheiro que o Estado gasta deve ter objetivos bem definidos na defesa das suas populações, garantindo os bens e serviços mais básicos que, de alguma forma, proporcionem alguma igualdade entre pessoas.

É necessário investir mais em educação e saúde, por exemplo. Não se podem continuar a não contratar professores quando as salas estão com turmas apinhadas de gente (quem alguma vez viveu de perto, ou de alguma forma, a realidade do professor/a sabe que tentar ensinar alguma coisa a mais de 30 crianças até ao quarto ano, por exemplo, é impensável. E não é o mercado nem o sector privado que vai investir em educação; pura e simplesmente que a educação privada pressupõe, logo à partida, uma desigualdade de classe: se não tens dinheiro para aquela escola, não estudas.

O mesmo se passa com a saúde. Isto para dar exemplos de quais os papéis que, realmente, devem caber ao Estado. Muito se tem falado, nos últimos dias, da proposta da ministra Assunção Cristas relativamente à manutenção de animais domésticos nas casas das pessoas, limitando o seu número. Podem existir, claro, argumentos de saúde pública, mas não é isso que está em causa.

Ao que esta situação peculiar ajudou a criar mais discussão não foi sobre se posso ter 3 ou 4 “bobbys” ou 3 ou 4 “tarecos”; a discussão, de facto, é sobre o papel do Estado. E esse papel não deve ser o de limitar ou controlar a vida privada dos seus cidadãos e cidadãs. Muitos e muitas se sentiram indignados com este anúncio sobre os animais de estimação, por ser uma vergonhosa intromissão nas nossas vidas.

Pois bem, mas será que muitos e muitas dessas pessoas tinham pensado antes em como os governos aliados ao capitalismo têm entrado, todos os dias durante anos nas nossas vidas privadas? Neste caso específico, o Estado fala diretamente sobre o assunto e tenta regular sobre ele. Na maioria de todos os outros casos, da forma como gerimos as nossas vidas, nos nosso padrões de consumo, nas nossas crenças, essa intromissão não é direta, poucas vezes o foi. É feita através de um sistema e de um regime que controla, de alguma forma, os meios de comunicação social, que nos diz o que está na moda ou não, como devemos pensar em determinada altura.

Por isso ainda muitos e muitas não saíram do estado de medo em que a chantagem sobre a troika os pôs. Porque não é fácil fazer passar a alternativa e pensar diferente. Porque não é fácil deixar de se ter medo. Mas o estado das coisas assim o exige.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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