O Estado da Cidade ou Lisboa a andar para trás

porIsabel Pires

24 de outubro 2022 - 10:40
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Passado um ano de direita a governar, os retrocessos já são muito visíveis e qualquer avanço progressista, que responda à crise da habitação ou que combata as alterações climáticas através de políticas de mobilidade, parece cada vez mais longe.

O último mês tem sido marcado por propaganda permanente, discursos efusivos e muito jogo de sombras por parte do executivo Novos Tempos sobre o seu primeiro ano de mandato na cidade de Lisboa. Até tivemos oportunidade de ouvir o novo líder do PSD elogiar o trabalho feito. Importa, então, perceber o que é esse ”trabalho feito”.

Como nota prévia, há que salientar a dificuldade dos Novos Tempos em lidarem com a oposição, com opiniões diversas, com a crítica. Isso, só por si, já seria grave. Mas, a isto, alia-se uma série de políticas que são contraproducentes com o rumo que Lisboa precisa.

Comecemos pela mobilidade. Precisamos mesmo de falar do que significam realmente as políticas da direita na cidade Falar em mobilidade é falar de alterações climáticas, é falar de rendimentos das famílias, é falar de direitos. Desde há um ano percebemos que a política de mobilidade de Moedas vai ser um vazio que nos fará retroceder vários anos.

Estagnação da rede ciclável, tentativa de destruição de ciclovias, desinvestimento nas GIRA, extinção de faixas bus, negação de qualquer debate sobre zonas de emissão reduzida, gestão errática da Carris, prioridade ao automóvel acima de todas as outras formas de mobilidade. É apenas um elenco do que é a política de mobilidade da direita que tem como prioridade o automóvel.

Temos uma visão oposta, porque Lisboa precisa que a prática acompanhe as necessidades existentes. Alargar a gratuitidade dos passes, aumentar a frota de autocarros e elétricos, fortalecer a rede GIRA, expandir a rede ciclável, implementar as ZER e zonas de acalmia de tráfego, devolver o espaço público aos peões e aos modos de mobilidade suave.

E porque é que temos esta visão oposta? Porque sabemos perfeitamente que prémios e cartas não são o suficiente para, no concreto, mudar o paradigma da mobilidade. E porque sabemos que a visão da direita é continuar com um discurso muito distante da prática.

Num ano de mandato, a política de mobilidade em Lisboa ganhou apenas um primeiro alargamento de gratuitidade no acesso ao transporte público. É relevante, aliás foi a primeira proposta do Bloco de Esquerda que deu entrada na CML. Mas não é suficiente, se ao mesmo tempo a CML teima em depauperar os mecanismos à sua disposição para melhorar a oferta de transporte público. É Lisboa a andar para trás.

Na habitação continuamos a viver uma crise e a direita pouco ou nada fez neste ano. O pós-covid trouxe o retorno dos despejos sem alternativa habitacional, reabriu as portas do processo agressivo de gentrificação que tornou Lisboa num parque de diversões. Por outro lado, vangloria-se o executivo do número de casas que atribuiu de renda acessível, ocultando sempre que são todas de concursos que já estavam em curso do anterior mandato.

O cenário de crise económica promete agravar ainda mais a situação de quem apenas consegue sobreviver em Lisboa. Então, perguntamo-nos: há concursos novos de renda acessível a serem lançados? Não se conhecem. Há medidas efetivas para combater a especulação imobiliária? Nem vê-las, pelo contrário, apenas têm ajudado a agravar o problema apostando forte nos “nómadas digitais”. Não houve, sequer, ainda um único reforço visível do parque habitacional público. A habitação é a principal crise da cidade, desde há muito, mas parece estar completamente esquecida e, assim, continua a direita a trabalhar para elitizar ainda mais a cidade. É Lisboa a andar para trás.

Estes dois eixos são fundamentais e espelham bem os retrocessos e inação da direita em Lisboa. Mas não são os únicos.

Para a saúde, apresentaram agora um “plano de saúde” que, bem vistas as coisas, apenas serve para beneficiar os privados. Garante pouco mais do que teleconsultas com privados, ao mesmo tempo que acaba com os projetos para 3 novas USFs que beneficiariam mais de 45 mil utentes. É Lisboa a andar para trás.

Na higiene urbana os problemas estão à vista e o executivo tenta culpar todos sem apresentar, até ao momento, soluções de longo prazo. Dizem que estão a trabalhar numa reforma estrutural, mas ninguém sabe o que isso é ou o que significará para a cidade.

Nos direitos sociais, os programas que estavam a ser implementados, com bastante sucesso em tantas áreas, como o apoio às pessoas em situação de sem abrigo, estão, passo a passo, a ser desmantelados e resta a política da caridade. É Lisboa a andar para trás.

O estado da cidade não é aquele Lisboa precisa e merece. Passado um ano de direita a governar, os retrocessos já são muito visíveis e qualquer avanço progressista, que responda à crise da habitação ou que combata as alterações climáticas através de políticas de mobilidade, parece cada vez mais longe.

Por mais que a direita em Lisboa tenha dificuldade com os processos democráticos, continuaremos a apresentar propostas e, aquelas que forem aprovadas, lutaremos para que sejam concretizadas: por uma Lisboa em comum, que responda pelas pessoas, pela habitação, pelo clima, pelos serviços públicos.

Isabel Pires
Sobre o/a autor(a)

Isabel Pires

Dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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