À data em que escrevo o presente texto passa pouco mais de um ano desde que o Governo de maioria absoluta do Partido Socialista entrou em funções. A atual legislatura tem sido marcada por polémica atrás de polémica, trapalhada após trapalhada.
Desde a acusação contra o ex-secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro, Miguel Alves, por um negócio feito enquanto ex-presidente da Câmara de Caminha, passando pela demissão de Pedro Nuno Santos da posição ministro das Infraestruturas e da Habitação, até, mais recentemente, o caso da indeminização a Alexandra Reis e toda a polémica envolta do dossier TAP, o desgaste do Governo tem sido bastante acelerado.
A estabilidade que a maioria absoluta iria, alegadamente, trazer ao país, parece não existir. Os telejornais são marcados por escândalos, a maioria dos comentadores anuncia o “aproximar do fim” do Governo. E agora? O braço-de-ferro entre o Primeiro-Ministro e o Presidente da República, Costa vs Marcelo.
No entanto, apenas pretendo analisar duas questões:
1. A simbiose entre o PS e a extrema-direita: uma relação duradoura
Aquando da campanha das eleições legislativas de 2022, um dos aspetos fundamentais para António Costa alcançar a maioria absoluta foi a narrativa em torno da ameaça da extrema-direita chegar ao poder, apelando ao voto útil: o PS daria a resposta à esquerda para enfrentar as forças fascizantes. Hoje vemos como tal era mentira.
Estrategicamente, o PS continua a utilizar esta tática. Ao continuar a alimentar a extrema-direita, dando-lhe mediatismo, desviam a atenção da incapacidade do Governo em dar respostas às necessidades da população.
Simultaneamente, aprofundam a crise no seio da direita: o PSD continua bastante enfraquecido e sem um projeto alternativo, cada vez mais condicionado pelo discurso e crescimento da extrema-direita. António Costa e a sua maioria absoluta irão continuar a explorar esta tática, bastante semelhante ao que Macron faz em França.
2. Os lacaios da burguesia: PS, com ou sem D?
Dissolução ou não, eis a questão – o braço de ferro entre Costa e Marcelo ficou marcado pela sucessiva ameaça do Presidente da República em utilizar o seu poder para dissolver, uma vez mais, a Assembleia da República, devido à polémica em torno da Comissão Parlamentar à TAP e o papel de João Galamba neste caso. No fim de contas, António Costa saiu vitorioso e o verniz entre o Governo e a Presidência parece ter estalado de vez.
Mas, na prática, em que é que isto se reflete? Nada. A zanga entre Costa e Marcelo não passou de puro espetáculo mediático. Aliás, Marcelo jamais dissolveria a Assembleia da República agora: por um lado, não existe uma alternativa à direita capaz de tirar o lugar ao PS; por outro, a dissolução não serviria os interesses do grande capital.
Face à crise que Portugal e os portugueses enfrentam, em que as condições de vida se deterioram e os preços aumentam, os interesses da burguesia continuam salvaguardados. Os volumes de negócios dos supermercados batem recordes, os bancos duplicam lucros e as multinacionais anunciam ganhos nunca vistos.
E onde fica a população entre tudo isto? Os salários e pensões continuam desatualizados perante uma inflação que não pára de crescer, os serviços públicos continuam sem o investimento necessário para o seu funcionamento e os lucros de quem está a ganhar com a crise continuam a não ser taxados.
Enquanto o espetáculo continua e somos distraídos por polémicas e mediatismos ocos, os mesmos do costume continuam a enriquecer à nossa custa. As estatísticas de que António Costa tanto se orgulha não são mais do que o reflexo da incapacidade do PS em responder às pessoas, que estão a sofrer um assalto às suas carteiras.
Artigo publicado no jornal Barcelos Popular a 18 de maio de 2023