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O empreendedor no governo

O governo de direita em Portugal tem revelado que o empreendedorismo, mais a ideia do que a ação, é fundamental na sua narrativa.

O empreendedorismo é, na maior parte das vezes, palavra oca na boca de quem a diz; é, muitas vezes, o último recurso para quem gastou todas as cartadas no seu discurso. O desemprego em Portugal? É preciso empreendedorismo! O problema da emigração? É preciso ser empreendedor! Sem se saber muito bem o que isso é, ser-se empreendedor, lá se vai repetindo o mantra, tornando-se numa espécie de ritualização. Mais ritualização do que realidade, como se percebe.

O governo de direita em Portugal tem revelado que o empreendedorismo, mais a ideia do que a ação, é fundamental na sua narrativa. Não é propriamente fundamental no seu programa de governo. Isso é o memorando com a troika. Nem é muito relevante para os objetivos práticos que pretende alcançar. Esses objetivos são a redução salarial, a facilitação de despedimentos e o aumento do número de desempregados. Mas, para a narrativa, o empreendedorismo é muito importante para a direita conservadora. Porquê? Vejamos:

Primeiro: a ideia de empreendedorismo desresponsabiliza o coletivo e responsabiliza o indivíduo. O mesmo é dizer que desresponsabiliza o governo enquanto ator económico coletivo e responsabiliza cada um de nós, individualmente, pela criação de emprego ou pelo desemprego que enfrentamos.

Isto é muito útil para o governo, principalmente, quando ele é responsável pela maior taxa de desemprego de sempre em Portugal e por ter metade dos jovens em situação de desemprego. Segundo o empreendedorismo, a responsabilidade não é do PSD, nem do CDS, nem das suas medidas de austeridade, mas é dos jovens que não são empreendedores o suficiente. Culpar a vítima faz muito sentido no discurso do empreendedorismo!

Segundo: o empreendedorismo é um discurso que espalha ilusão e, se acreditarmos nele, consegue alterar a perceção da realidade. Não, não altera a realidade, que isso já era pedir demais. Mas altera a perceção.

Ou seja, cria a fantasia de que não vivemos num país de feroz destruição de emprego nem de recomposição de forças entre capital e trabalho. Vivemos, isso sim, num país cheio de oportunidades, com um elevador social que não está nem ferrugento nem empenado, mas que funciona lindamente. Basta sermos o tal empreendedor, noutros tempos falado como self made man. Aí está, alteração da perceção. E não fosse o facto de as alterações de perceção poderem indiciar coisas graves, como psicose, tudo estaria bem.

Mas percebe-se porque razão o mantra do empreendedorismo é importante para a narrativa do governo. Mesmo que ele esteja cada vez mais anacrónico. Na altura do neoliberalismo, ele parecia ter mais espaço do que nos tempos que vivemos de austeridade e autoridade, mas mesmo assim insiste-se. Tanto que até se organizam roadshows (sim, o nome é mesmo este) pelas universidades para discutir com os estudantes a melhor forma de criar empresas e o seu próprio emprego, a melhor forma, enfim, de se fazerem à vida sem reclamarem o que quer que seja do Estado ou da solidariedade social.

E nestes roadshows há sempre um caso prático. Sim, um caso prático, porque nestas coisas de empreendedorismo, até António Aleixo sabia que “para a mentira ser segura e atingir profundidade, tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade”. E é preciso criar a expectativa, a ilusão, nem que seja recorrendo à exceção que confirma a regra.

Compreendamos, o empreendedorismo é como a Adidas, a marca desportiva. Tem slogans bonitos, do tipo Impossible is nothing, mas na prática, só uma minoria pode comprar a marca e, sob essa minoria, há uma imensidão de explorados em fábricas no Bangladesh, na Indonésia, etc., a ganhar um salário de miséria e a produzir a marca que lhes diz ‘Trabalha, impossible is nothing’. Isso é empreendedorismo. Meia dúzia consegue, a maior parte reparte-se pelo desemprego, pela precariedade e pela imigração.

Bem, depois há os outros que chegam a secretário de Estado do Empreendedorismo, depois de passar pela Sociedade Lusa de Negócios, depois de ter sabido das falcatruas do BPN e não ter denunciado nada. Para ele, impossible may be nothing, mas não é por causa de ser um grande empreendedor, certamente.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda, membro da Comissão de Saúde da Assembleia da República. Psicólogo
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