O embuste do aumento das reformas

porBerta Alves e Deolinda Martin

12 de setembro 2022 - 11:17
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Com o corte nas pensões de reforma, regressa a narrativa de que as pessoas mais velhas põem em causa o futuro dos mais jovens.

Foto de Paulete Matos.

As medidas anunciadas pelo governo PS para fazer face à inflação foram de imediato denunciadas, e bem,  pelas/os dirigentes e deputados do Bloco de Esquerda como insuficientes e mesmo, como um embuste, no caso referente às e aos Pensionistas, Aposentados e Reformados, identificando nestas medidas “um corte definitivo das pensões que nem  o governo da Troika tinha conseguido fazer em Portugal”[1] 

Embuste  porque se faz um adiantamento extraordinário sobre as pensões devidas em 2023, ao determinar que todas as pessoas que recebam pensões até aos 5.318,4 euros mensais receberão em Outubro  o equivalente a uma pensão e meia, com o objetivo de retirar esse montante do cálculo da atualização devida por lei em 2023 que passará a ser entre 3,5% a 4,5% em vez de ser entre 7,1% e 8% . E com consequências permanentes nos anos seguintes, pois se as regras de atualização de pensões se se mantiverem em vigor, a partir de 2024, os aumentos serão feitos a partir de uma base mais baixa.[2] 

Embuste porque se usou a  Lei n.53/2006, de 29 dezembro, de Vieira da Silva para provocar a estagnação das pensões e, agora, que a conjuntura mudou (aumento da inflação e crescimento económico),  foi suspensa para não ser cumprida.

Sim, estamos perante um corte definitivo das pensões,  num contexto de inflação que ronda os 9% e de crise social.

Depois de uma década de perda contínua de poder de compra com o  congelamento de pensões (2011-2015) e com a indexação da atualização à inflação que foi muita baixa ou inexistente nos anos seguintes. Só as pensões mais baixas tiveram aumentos extraordinários de 10 euros, rapidamente absorvidos pela inflação.

E não podemos esquecer que  a taxa de pobreza entre as e os pensionistas  se situava em 2021 em 17, 3%, maior entre as mulheres (18,9%) do que entre os homens (15,1%), agravando-se a partir dos 75 anos, em que atinge a taxa de 22,3% entre as mulheres e  de 16,8% para os  homens.

O governo de maioria absoluta do PS dá continuidade a uma política de austeridade na linha dos governos da troika e de Passos Coelho e das recentes recomendações do FMI[3] de empobrecimento dos pensionistas. Mais, junta, como justificação,  que tem de ser assim pois “é preciso garantir a sustentabilidade da Segurança Social“[4]. É o regresso da narrativa de que as e os pensionistas e reformados atuais põem em perigo os direitos futuros das e dos trabalhadores no ativo e das e dos jovens.

Não admitiremos cortes nas nossas pensões!

As pensões de reforma são um direito das e dos trabalhadores!

Exigimos regras justas  e respeitadas de atualização anual das pensões!

É preciso juntar forças com as  associações de reformados e organizações sindicais  na defesa das pensões e reformas dignas!


Notas:

[1] José Gusmão, Parlamento Europeu em https://www.facebook.com/watch/?v=786531559330496&t=3  (08.09.2022)

[2]  “Explicador: pensionistas saem a perder”,  em - https://www.esquerda.net/artigo/explicador-pensionistas-saem-perder-com-medida-do-governo/82728  (06.09.2022)

[3] https://eco.sapo.pt/2022/07/05/fmi-quer-alteracoes-no-sistema-de-pensoe… (06.09.2022)

[4]  https://www.tsf.pt/portugal/politica/ninguem-vai-perder-dinheiro-em-202…; (07.09.2022)

Sobre o/a autor(a)

Berta Alves e Deolinda Martin

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