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O dia em que abortei

Menos de cinco anos fizeram toda a diferença. A 11 de fevereiro de 2007, o “sim” à interrupção voluntária da gravidez (IVG) venceu o referendo com mais de 59% dos votos. E eu fui uma das mulheres que já não teve de se sujeitar ao aborto clandestino e inseguro em Portugal.

Não escolhi a data, mas o que é certo é que menos de cinco anos fizeram toda a diferença. Não fui parar àquela casa em Aveiro, onde cheguei a acompanhar duas colegas do secundário que tremiam de medo sem saber o que as esperava. Na altura ficava à porta, também eu em pânico, sabendo que qualquer complicação de saúde as poderia levar a uma urgência de hospital e daí, posteriormente, às barras de um tribunal. E a vergonha. E o medo. A sensação de que toda a gente sabia o que tínhamos ido ali fazer e nos censurava, nos apontava o dedo. Também não tive de atravessar a fronteira e dormir uma noite ao relento, como aconteceu com uma colega de faculdade que, quando ganhou coragem, me pediu dinheiro - aquele que eu tinha amealhado para a carta de condução - porque precisava de ir a Badajoz.

Por menos de cinco anos, a minha história foi outra. E isso fez toda a diferença.

A minha gravidez era tão pouco óbvia que nem eu nem a médica de família acreditávamos nessa possibilidade até eu ser confrontada com os factos. Até ser uma realidade inegável. E esmagadora. Fui fazer uma ecografia à Avenida António Augusto de Aguiar e disseram-me que já se via nas imagens um “saquinho”: “Mas não posso adiantar mais nada. Fale com a sua médica”. Desci até à Avenida da Liberdade a pé. Branca que nem cal. A tremer que nem varas verdes. Num estado de total pânico. Liguei para a clínica onde tinha feito as análises ao sangue uns dias antes. Perguntei se já tinham o resultado: “Sim”. Implorei à técnica que me atendeu para que o transmitisse pelo telefone. Lá acedeu: “Parabéns!!! Está grávida!”. Sentei-me no chão a chorar convulsivamente, totalmente descontrolada, ao ponto de a técnica me pedir desculpa, me tentar acalmar e me perguntar se podia ajudar de alguma forma.

Eu sou aquela pessoa que participou em todas as campanhas pela despenalização do aborto mas que estava totalmente convencida de que, no meu caso, fosse qual fosse a situação, o aborto nunca seria uma opção. Aquela pessoa que queria ser mãe desde os catorze anos, que babava à frente de lojas de roupa de bebé e que, inclusive, já tinha tentado engravidar, mas sem sucesso. E lá estava eu. Naquela situação. Eu!! É certo que recuperava ainda de um luto de uma separação, que estava cheia de dúvidas sobre o futuro, que a minha situação financeira estava longe de ser das melhores, que o portador do sémen que fecundou o meu óvulo não era um apoio, e sim uma mágoa. Mas não sei o que pesou mais. Sei que queria sair do meu próprio corpo, que não o reconhecia. Rejeitei física e psicologicamente aquela gravidez.

Pude ligar a uma médica amiga que me explicou como acionar todo o processo. Pude contar com o apoio incondicional de outra amiga que viveu momento a momento a meu lado. Em menos de cinco dias, pude interromper a minha gravidez. Em condições de segurança. Sem qualquer dúvida de que aquela era a única decisão responsável a tomar. Era a única decisão que podia tomar.

O fim do aborto clandestino e inseguro em Portugal

A despenalização, a 11 de fevereiro de 2007, da interrupção voluntária da gravidez (IVG) trouxe a possibilidade de acabar com o aborto clandestino e inseguro em Portugal. Ao contrário do que anunciavam os arautos da desgraça, de que as mulheres iriam todas fazer filas para abortar, que iam acumular aborto atrás de aborto, num corrupio sem fim, não só nada piorou, como estão a diminuir consistentemente, ano após ano, as IVG. Desde o ano em que recorri à interrupção voluntária da minha gravidez, em 2011, e até 2018, o número de interrupções da gravidez por opção da mulher nas primeiras 10 semanas caiu cerca de 28%: de 19.921 para 14.306. Acresce que 92,6% das mulheres que realizaram uma IVG escolheram um método anticoncepcional. Destas, quase 40%, optaram por métodos de longa duração. As complicações decorrentes de uma IVG são atualmente praticamente nulas. E o país não assiste à indignidade inqualificável de sujeitar uma mulher às barras do tribunal e de a mandar para a prisão por fazer um aborto.

Não nos esquecemos dos ataques da direita contra a lei da interrupção voluntária da gravidez. Permitir qualquer retrocesso civilizacional neste campo não é uma opção. O caminho é no sentido de garantir o acesso universal às consultas de planeamento familiar e a distribuição gratuita de métodos contracetivos no Serviço Nacional de Saúde (SNS). É, tal como recomenda a Direção Geral de Saúde, no sentido de “assegurar a diversidade de métodos e permitir escolhas adaptadas a um maior número de utentes, garantindo a liberdade de escolha e possibilitando maior adesão à terapêutica”. E é no sentido de assegurar que a dignidade, a liberdade de escolha da mulher, a sua decisão são impreterivelmente respeitadas.

A meu ver, tal deverá passar também pelo alargamento da capacidade das instituições públicas no que respeita à realização das Interrupções da Gravidez (IG). De acordo com dados da DGS, em 2018, cerca de 71% das IG tiveram lugar em instituições públicas. No que respeita às IVG em instituições privadas, 96% do total foram realizadas na Clínica dos Arcos, em Lisboa. Nas instituições públicas, em 93% dos casos, o método utilizado foi o do procedimento medicamentoso. Já nas privadas, apenas 5% das IVG foram realizadas desta forma e cerca de 89% das IG foram efetuadas por meio cirúrgico com anestesia geral. No que ao meu caso em particular diz respeito, a IVG foi realizada na Clínica dos Arcos por meio cirúrgico com anestesia geral. É preciso também pensar na formação e sensibilização dos profissionais. No meu Centro de Saúde, os assistentes não respeitaram a exigência da confidencialidade e a minha médica de família decidiu anunciar publicamente, numa sala de espera repleta de gente, que era objetora de consciência e que, portanto, eu teria de ser atendida por outro profissional de saúde.

Daqui a menos de dois meses faço 40 anos. Não sou mãe. Tenho sérias dúvidas se alguma vez serei mãe biológica. Muito provavelmente não. Sei de cor a data da minha IVG. Não me esqueci de qual era o tempo exato da minha gestação. Mas nunca, em momento algum, pus em causa a minha decisão. Tenho orgulho de ter assumido essa decisão. E tenho orgulho de todas aquelas e todos aqueles que, a 11 de fevereiro de 2007, tiraram este país da “idade das trevas”.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do trabalho
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