Está aqui

O “dever de solidariedade”, 20 anos depois do 11 de setembro

Quis também o destino que a despedida de Jorge Sampaio coincidisse com os 20 anos do 11 de setembro de 2001, esse acontecimento catalisador, momento de transição que inaugurou uma outra era, talvez o início do século.

Quis o destino que o último texto público de Jorge Sampaio fosse o apelo a que deu o nome “Dever de solidariedade”. Referia-se “aos desafios de longo prazo que são comuns a toda a humanidade”: alterações climáticas, revolução digital, desequilíbrios mundiais, desigualdades, conflitos que ameaçam a paz global. E aludia também à resposta urgente a crises como a da Síria, Cabo Delgado ou Afeganistão. Até ao fim, Sampaio pôs o peso da sua palavra e do seu percurso ao serviço da atenção às vítimas da violação dos direitos humanos e ao serviço da mobilização solidária com os refugiados, nomeadamente os estudantes sírios ou as jovens afegãs, para quem buscava oportunidades de acolhimento e de estudo.

Quis também o destino que a despedida de Jorge Sampaio coincidisse com os 20 anos do 11 de setembro de 2001, esse acontecimento catalisador, momento de transição que inaugurou uma outra era, talvez o início do século.Quis também o destino que a despedida de Jorge Sampaio coincidisse com os 20 anos do 11 de setembro de 2001, esse acontecimento catalisador, momento de transição que inaugurou uma outra era, talvez o início do século. o choque com as imagens, sem percebermos bem do que se tratava. Depois, nos dias e nos meses seguintes, a perceção de que aquele evento teria uma consequência brutal muito para além das vítimas diretas que causou. A “legítima defesa” foi então invocada por Bush Jr. para uma investida imperial muito para além de qualquer ação defensiva. O que há vinte anos se iniciou foi, pois, uma remilitarização da política, com a reabilitação da narrativa das “forças do bem” contra as “forças do mal”, na expressão que Geroge W. Bush passou a utilizar obstinadamente, como contraparte da narrativa da “guerra santa” contra o “Grande Satã” norte-americano. O clima emocional que o ataque provocou foi explorado pela administração americana para descartar as respostas assentes no direito internacional. Primeiro, o bombardeamento e a invasão do Afeganistão, em outubro de 2001, com significativa complacência internacional (também pelo momento de abalo que se atravessava), e, pouco mais de um ano e meio depois do 11 de setembro, um verdadeiro ponto de viragem na política: a ocupação militar do Iraque, expressão da “guerra infinita” movida então pelos Estados Unidos, instrumento para o controlo do petróleo iraquiano, para o reforço da presença militar no médio oriente, para o relançamento da economia pela indústria de guerra e (não esqueçamos!) autêntico ultimato sobre a ONU e sobre o multilateralismo.

A posição das esquerdas à esquerda (Bloco, PCP) e de Sampaio não coincidiu em 2001, no que à intervenção militar no Afeganistão diz respeito. Já em 2003, então Presidente, Sampaio não permitiu que as tropas portuguesas fossem para o Iraque, ao contrário da intenção do Governo de Durão Barroso, que associou Portugal à ocupação militar através do acolhimento da Cimeira da Guerra, nas Lajes. Pelo seu lado, Sampaio criticou a intervenção norte-americana e empenhou-se, pouco depois do termo do seu mandato presidencial, numa intervenção política nos antípodas dos que, em Portugal e noutros países, fizeram coro com o belicismo imperial e elogiaram a “determinação norte-americana" contra a “fraqueza europeia”. “A iniciativa da Aliança das Civilizações, lançada pelas Nações Unidas em 2006 - depois da problemática, contestada e danosa invasão e ocupação militar do Iraque e da multiplicação de atentados à bomba contra civis em vários países, designadamente ocidentais - era, a meu ver”, escreveu Sampaio no seu último texto, “a resposta certa para promover o diálogo de civilizações, uma cultura da tolerância, do conhecimento e respeito mútuos e uma coexistência pacífica entre os povos com base no direito internacional e na protecção dos direitos humanos”. Em 2013, Sampaio criou ainda a Plataforma Global de Assistência Académica de Emergência a Estudantes Sírios, uma iniciativa inédita, que tem revelado grande sucesso e que agora procurava alargar a outros âmbitos, como o apoio a estudantes afegãos.

Muitas são as dimensões do percurso e da bondade de Jorge Sampaio que têm sido muito justamente sublinhadas nestes dias - da luta estudantil à defesa dos presos políticos do fascismo, das pontes com as esquerdas à confiança que suscitava nesses diálogos, dos gestos concretos e simbólicos contra o abandono escolar ou contra a homofobia ao ativismo pela autodeterminação de Timor ou pelos direitos dos doentes de sida ou tuberculose. Mas aquele último apelo fica a ressoar-nos na cabeça e interpela-nos hoje no balanço destes últimos 20 anos. As instituições internacionais estão mais debilitadas, o despotismo financeiro expande a sua dominação, conflitos históricos permanecem e agravaram-se, as ocupações militares revelaram os seus efeitos, a regulação dos principais problemas da humanidade - a fome, a pandemia, a crise climática, a perseguição aos refugiados... - enfrentou nos últimos anos a indiferença e a imensa arrogância de governos como os de Trump ou Bolsonaro. E nós, que temos feito? Que outros caminhos temos ajudado a trilhar? E sobretudo: o que podemos fazer mais? Teremos a perspicácia de fazer deste adeus um compromisso solidário para o futuro?

Artigo publicado em expresso.pt a 12 de setembro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
(...)