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O desafio da radicalização da direita

O estado catatónico da direita orgânica deixa espaço para que a direita inorgânica se solte e para que isso alimente estratégias, por enquanto subterrâneas, de ganho de hegemonia da extrema direita nesse campo.

Esse estado de desagregação das direitas tradicionais resulta de dois fatores. Em primeiro lugar, da profunda degradação da relação da direita com a sociedade em virtude da política de punição social posta em prática pelo passismo. A sociedade portuguesa percebeu bem que a austeridade para muitos transferiu poder e riqueza para poucos. E que isso não foi um efeito colateral, foi o objetivo pretendido. Essa punição seletiva provocou uma imensa descredibilização social das direitas tradicionais e um desgaste enorme do seu poder.

O segundo fator dessa degradação da direita foram as vitórias da esquerda. Cada medida de reposição dos rendimentos e dos direitos, cada mudança positiva conseguida nas vidas concretas das pessoas concretas, cada momento de recusa frontal da asfixia das políticas de redistribuição pelos dogmas financistas simpáticos para Bruxelas, cada uma das articulações das forças da esquerda para ir mais além do que o PS propunha no seu programa, cada um destes factos tirou chão ao discurso das direitas.

A desorientação e a fratura das direitas tradicionais e a libertação das pulsões populistas da extrema direita, com uma alimentação indisfarçável pelo pior das redes sociais e pelo pior da comunicação social, são um desafio para a esquerda. Uma esquerda que se deleite com esta situação e sobre ela repouse negligentemente mais cedo do que tarde acordará confrontada com um pesadelo. O desafio é o de levar a sério a radicalização da direita. Isso supõe tirar-lhe o que explorar nas suas campanhas incendiárias. A resposta à radicalização da direita só pode ser a qualificação dos serviços públicos que permitam a efetividade dos direitos de todos, um combate coerente contra os mecanismos e práticas de corrupção e um escrupuloso cumprimento de regras de conduta no espaço mediático.

O tempo político que vivemos é, pois, definido pela centralidade da luta contra a extrema direita. E, sobre isso, não nos enganemos: não é por referência explícita à extrema direita que se fará essa luta – é por referência aos direitos de todos e às desigualdades na sua efetivação.

Artigo publicado no diário “As Beiras” em 22 de dezembro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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