Está aqui

O Christian, a Rosa e a rua

Numa sociedade democrática, garantir casa para toda a gente tem de ser prioridade política, porque é condição essencial no combate a todas as formas de exclusão e de desigualdade.

Quero falar-vos do Christian Georgescu, uma daquelas pessoas que a vida nos dá o privilégio de conhecer. Falo-vos com nome e apelido porque a história dele é pública. Nasceu em Bucareste, na Roménia, tem 40 anos e encontrou casa no Porto. Trabalhou desde cedo até que um dia lhe faltou comida na mesa. A crise do início dos anos 2000 e a necessidade de dar de comer à filha fizeram com que decidisse entrar num mundo paralelo. A juntar a isso, começou a consumir drogas e foi preso. Quando saiu percebeu que tinha de ir para longe para mudar e veio para o Porto. Chegou no dia 1 de Maio de 2010. Quando o dinheiro acabou restou-lhe a rua para viver. E na rua voltou a consumir. A força de vontade e a pessoa certa (há sempre uma história de amor) fizeram com que desse a volta por cima. Deixou de consumir, arranjou uma casa e, desde então, trabalha para que haja casas para quem as não tem. Hoje é respeitado, arranca sorrisos, é amigo, é ombro, é inspiração. Quando estava na rua precisou de uma pessoa que o quisesse. Essa pessoa é outra que não conseguimos largar desde o dia em que a conhecemos. Criaram uma associação, a Saber Compreender, cujo trabalho é um bálsamo para todos os sentidos. Não há pena nem comiseração, há respeito e reconhecimento. Há a capacidade de acreditar que qualquer dia é um dia possível para se ter a vida toda pela frente.

Na porta do supermercado onde vou em Bruxelas está há alguns meses, quase todos os dias ao fim da tarde, Rosa (chamemos-lhe assim). Conversamos. Também é romena, tem a minha idade, dois filhos dela e mais dois herdados da irmã que morreu há poucos anos. Simpática e afável carrega a vida toda num saco de plástico e vive numa estação de metro. O país que escolheu para fugir à miséria foi a Itália, mas as políticas italianas expulsaram-na. A língua tem-na impedido de arranjar trabalho. Fala italiano, mas não francês. Esquecendo-se dela mesmo, consegue nesta vida sem casa juntar o suficiente para que os filhos todos possam comer durante o mês. Sabemos bem do que esta vida é feita. Somos de um país onde tanta gente teve de emigrar para poder continuar a ter casa.

Nas ruas de Portugal encontramos muitas pessoas sem casa. Portuguesas e de outros países. O preconceito é generalizado, mas é maior para quem vem de fora. Pouco importam as razões que levaram aquelas pessoas concretas a estarem naquela situação. É mais fácil achar que fizeram escolhas erradas, que são responsáveis por não ter casa ou emprego. Essa é, afinal, a narrativa que se foi impregnando e ganhando força de lei. Mas a verdadeira lei, Constitucional, é a que diz que ter casa é um direito. Pensá-lo assim é assumir a nossa responsabilidade colectiva. Não pode haver a desculpa dos vícios, do feitio, da preguiça ou seja lá do que for. Garantir habitação para todas as pessoas é mesmo uma responsabilidade pública.

Numa altura em que assistimos a um processo acelerado de gentrificação, à manutenção de políticas de salários baixos e precariedade, à cumplicidade com a especulação imobiliária, não faz falta juntar o papão da imigração. Ter casa é um direito de todos/as, não é para privilegiados nem pode estar sujeito às estritas regras do negócio e do lucro. Numa sociedade democrática, garantir casa para toda a gente tem de ser prioridade política, porque é condição essencial no combate a todas as formas de exclusão e de desigualdade.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” em 9 de dezembro de2018

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
(...)