O catálogo Rio, que seus males espanta

porFrancisco Louçã

06 de março 2018 - 23:07
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O ano de 2018 ou é o do início da recuperação do SNS ou da degradação da maioria. E nada disso depende de Rio, só depende de Costa, Catarina e Jerónimo.

Rui Rio fez dois discursos no congresso. Pouco ficou dessas orações, diz-se que lhes faltou salero, uma frase recordável, uma proposta que fosse (houve a do Tribunal Constitucional despachado para Coimbra, mas a cidade, que já tem doutores bastantes, nem tugiu) e que só resta a memória de uma pateada discreta a Elina Fraga, aliás depois desdobrada em incidentes sucessivos. Vêm aí mais, avisa seraficamente o novo presidente do PSD, já à espera do desastre Negrão.

Apesar deste défice congressual, haverá algo a temer à esquerda? Todos parecem acreditar que sim; sugerirei que talvez, mas pelas razões opostas às que têm sido enunciadas: não é por Rio ser novidade, mas por não o ser.

Nervosismo a mais

Não deixa de ser curioso que, tendo Rio sido tão vazio e tendo até reafirmado que nada proporá por ora, os palácios tenham reagido com precipitação. Em Belém foi recebido logo na 2ªf, como aprazado há semanas, e houve muito que conversar, tanto mais que Rio precisa de Marcelo mas não pode fazer nada com ele que não reforce o governo, e Marcelo só precisa que Rio não atravanque o PSD pós-Rio para evitar um pós-PSD. Em S. Bento foi recebido na 3ªf e foram logo nomeados dois dirigentes laranja para negociar descentralização e fundos europeus.

Do lado dos partidos, o mesmo alvoroço. O CES pediu namoro. O PS multiplicou-se em declarações, que era bem-vindo, há seis anos que não sabíamos que era feito de si. O Bloco afirma que a música é a mesma. O PCP antecipou sinais de conspiração funesta, que "confirmam que o PS, e o seu Governo, seguindo as suas opções de classe ao serviço do grande capital, assume cada vez mais a convergência com o PSD e o CDS".

Marcelo, num lugar implausível, São Tomé, pressentiu esse nervosismo e achou necessário mandar recado, conheço bem os dirigentes partidários, dois foram meus alunos, outro meu secretário-geral, o que eu lhe aturei, outro meu colega constitucional, há décadas que estou de olho neles e está tudo tranquilo.

Dois catálogos de nadas

Se se tratasse do Go, o ancestral jogo chinês em que se vão colocando peças no tabuleiro, que ficam imóveis à espera de um erro de afoiteza do adversário, então Rio estaria a ganhar, ainda que sem merecimento. E até poderia concluir que o que vale é esperar sentado e nada fazendo, como aventaria Lao-Tsé. Mas em política não é assim.

Ficam então os catálogos dos discursos no congresso. Ora lembre-se, faz favor: o que é que era mesmo? Justiça e descentralização no primeiro, nenhuma ideia sobre o que fazer. Flores retóricas no segundo, Portugal descobriu a ilha de Porto Santo há 600 anos, mais alguns inventários de problemas: pouca natalidade, muita terceira idade, a reforma da segurança social que logo se verá, melhor formação de professores, um sistema de saúde que abençoe os lucros privados. Não me pergunte como, ao invés das dietas anunciadas pelos convertidos.

O governo está encantado, porque tem a oferecer desde já um produto acabado: a municipalização de sistemas públicos, que passa por descentralização. O PSD gosta da oferta porque a esquerda não gosta, por isso vem acordo.

O tempo encurtou

O problema é que a política não é entretenimento, menos ainda para quem disputa a alternância. Para Costa, ganhar tempo é uma arte e, como o Presidente, sabe que lhe convém um PSD em conciliábulos por fundos estruturais, preso aqueles ícones que fazem forte o governo e fraca a oposição. Para Rio, é perder tempo que não tem, pois está em contagem decrescente. Não só por causa dos opositores internos que olham para ele como um regente destinado a perder eleições, mas sobretudo por causa de si próprio: levar uns meses a definir umas propostas é uma forma de desmentir o discurso que assegura que está preparado para assuntos tão fundamentais. Rio empastela Rio.

Assim sendo, o catálogo não serve para nada: nem haverá acordo para círculos uninominais (seria preciso topete para aprovar essa tecnologia para falsear os resultados eleitorais), nem para descontos obrigatórios em segurança social para os privados (que é a única coisa que interessa à finança), nem para reforçar as escolas privadas (a Igreja já se resignou). Fica a aparência, com o problema de o governo gostar de se pensar no meio, entre Rio e as esquerdas.

Ora, o tempo é curto, mas não é só para o PSD. É curto para o governo, por dois motivos. Primeiro, o de fora: a subida de juros da dívida norte-americana e o nervosismo nas Bolsas prenuncia que estão a chegar os juros caros. Depois, o de dentro: enquanto o governo continuar a fingir que não vê a crise da saúde estará a virar as costas à reforma estrutural que urge para Portugal, a do relançamento do SNS. Se as esquerdas se preocupam com Rio, proponham a reforma que vale. Se não se preocupam, façam o mesmo.

O ano de 2018 ou é o do início da recuperação do SNS ou da degradação da maioria. E nada disso depende de Rio, só depende de Costa, Catarina e Jerónimo. O tempo está a contar para a maioria e Rio não tem propostas que contem, ou talvez só queira contar no que não conta. O problema do país é mesmo o que o governo queira fazer, não é o que Rio não sabe fazer.

(no jornal Expresso de 24 de fevereiro de 2018)

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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