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O bom-senso não paga a renda

O cenário da conversa é, digamos, uma loja de uma grande cadeia de vestuário. Três trabalhadores discutem sobre qual a hora a que devem entrar ao trabalho: aquela que está assente nos seus horários e contratos ― a de abertura da loja ― ou aquela a que todos, realmente, entram.

Uma explicação acessível e simples do programa neoliberal: atingir o «coração» e a «alma» dos indivíduos.
Fernando Ampudia de Haro e José Nuno Matos, Os Sujeitos do Neoliberalismo

Quem muito se abaixa, o fundilho aparece.
Provérbio

«É uma questão de bom-senso!»

«Mas porque é que o bom-senso tem de ser sempre dos trabalhadores? Nunca é da empresa!»

O cenário da conversa é, digamos, uma loja de uma grande cadeia de vestuário. Três trabalhadores discutem sobre qual a hora a que devem entrar ao trabalho: aquela que está assente nos seus horários e contratos ― a de abertura da loja ― ou aquela a que todos, realmente, entram ― cinco, dez, quinze minutos antes para que tudo esteja pronto a tempo de abrir a horas.

«Mas, ó Tó, sabes bem que entro sempre mais cedo. Mas no dia em que me vierem cobrar isso, deixo de o fazer!»

«Oh, eu faço porque não custa nada. Há sítios bem piores do que cá, sei lá, o Pingo Doce e assim.»

«E as estufas de Odemira são piores que o Pingo Doce. E as pirâmides do Egito eram piores que as estufas… por esse andar…»

Ali, na loja, todos entram um pouco mais cedo. Não porque haja pressão das chefias para tal ― só às vezes ―, mas por brio. Abrem às dez e a essa hora têm de ter a farda posta, as caixas abertas e contadas e o computador ligado. Querem prestar um bom serviço.

A novidade é que, agora, têm de, antes de abrir a loja, fazer um procedimento no computador, numa aplicação da empresa (que demora longos minutos até começar a operar) em que confirmam o cumprimento de todas as tarefas que, sempre e durante anos, fizeram sem precisar de aplicações digitais. E o mesmo tem de ser feito à hora de fecho ― após essa hora, na verdade.

A propósito, Cátia, a mais indignada, relembra: «Às horas de fecho é igual: se tenho de fechar e depois confirmar no computador todas as tarefas, saio sempre depois da hora!»

O terceiro colega, até agora silencioso acrescenta: «Se isto forem 15 minutos por dia, ao final do ano, é uma semana de trabalho à pala.»

«Eu cá faço, não me custa nada.»

«A mim também não me custa nada, o problema não é esse.»

«O problema é que criamos a ideia de que são sempre os mesmos a ceder: os trabalhadores. Se podemos trabalhar todos os dias uns minutos à borla, também podemos chegar sempre ao fim do mês sem dinheiro. É essa a mensagem que passamos para o lado de lá. Cada vez que damos a mão, pedem-nos o braço.»

Tó sente-se dividido. É evidente que os colegas têm razão. Ele vive longe (como pagar casa no centro?), passa todos os dias duas horas nos transportes, e quinze minutos a mais é a diferença entre apanhar um comboio ou o seguinte. Ao fim do dia, quinze minutos podem significar uma hora. Mas se entrasse à hora certa, tudo se atrasaria. Teriam de fazer tudo à pressa, colocar os clientes à espera, iria formar-se fila. Tarefas ficariam por fazer. Mais tarde, cairia tudo nos ombros deles. Já sem convicção, volta à carga:

«Tem de ser assim. Caso contrário, no final vai sobrar para nós. Não há alternativa.»

«Olha que não. Bastava que nos nossos horários estivesse a nossa hora de entrada real e que as oito horas fossem contadas a partir daí. Se a loja abre às dez, o nosso horário tem de começar às nove e quarenta e cinco. Bastava ser assim com uma pessoa por dia, que entrava e saía mais cedo. Quem abria a loja, não a fechava. E ia rodando.»

«Ah… e à hora de saída? Se estou a terminar de arrumar as caixas, não vou deixar isso a meio só porque é a minha hora de sair.»

«Claro que não. O trabalhador, no final do horário, deve terminar as tarefas em curso. Mas isso deve ser exceção. E, no final do ano, as horas feitas a mais têm de ser pagas. Está na lei.»

(Confirma-se: está no ponto 3 do artigo 203º do Código do Trabalho. Como saberá ele estas coisas? Estará sindicalizado?)

«Olha Zé, nem sabia disso. Mais razão me dás. Mas, seja como for, isso é completamente diferente de nos darem tarefas que têm de ser sempre feitas após o fecho. Como esta treta da aplicação.»

Entretanto, tinha-se formado uma pequena fila de clientes. Alguns assistiam com curiosidade à pequena assembleia proletária. Outros inquietavam-se, não tinham tempo a perder. Então a discussão terminou e os três colegas lançaram-se ao trabalho ― haja bom-senso!

Sobre o/a autor(a)

Livreiro e ativista sindical
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