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O Bloco decidiu no tempo certo

O apoio à candidatura de Manuel Alegre foi a escolha indicada pela Convenção Nacional, como foi público então, e foi a escolha confirmada pela Mesa Nacional. A razão é clara. Nas próximas presidenciais, trata-se de vencer na disputa pela Presidência da República o principal dirigente histórico da direita portuguesa dos últimos trinta anos, Cavaco Silva. É Manuel Alegre quem o pode conseguir e Manuel Alegre já é candidato.

Esta situação não é nova: em 1995, Jorge Sampaio venceu Cavaco Silva com o apoio à primeira volta de toda a esquerda parlamentar e de toda a esquerda extra-parlamentar. Como hoje, o PS estava no governo, e isso não levou ninguém a opor-se a esta candidatura que juntou na primeira volta todos os votos contra Cavaco, mesmo que Sampaio tivesse sido secretário-geral desse partido. Pelo PCP, coube nesse momento a Jerónimo de Sousa a missão de se candidatar sem ir a votos. E Octávio Teixeira já esclareceu que a mesma política será seguida agora: "se o quadro for o de uma decisão logo na primeira volta, o PCP terá de ponderar, como aliás sempre fez. Nunca prejudicámos a esquerda numas presidenciais".

Só que Alegre não é Sampaio. Sampaio foi uma candidatura do PS, vinda do establishment de Guterres. Foi escolhido por Guterres e anunciado por ele no congresso do seu partido. A candidatura de Alegre, em contrapartida, é uma escolha pessoal feita em nome de um percurso de clarificações importantes para a luta social - na defesa dos serviços públicos, dos direitos do Trabalho - que distinguem Alegre na política portuguesa. É este percurso que leva os mais impenitentes governistas a hostilizar Alegre; é este percurso que afasta de Alegre os grandes beneficiários das políticas de injustiça e privatização dos últimos anos.

Há divergências programáticas entre apoiantes da sua candidatura. Evidentemente. Uma campanha presidencial não é a formação de um partido: é a conjugação de um movimento eleitoral. E um candidato supra-partidário tem a força de juntar esse movimento de convergências, não dependendo de nenhum partido e sendo diferente de cada um.

É por isso mesmo que o percurso de Alegre faz a força da sua candidatura. Por muito que, até às eleições, cavaquistas de todos os matizes tentem reduzir o "eleitorado natural" de Alegre a uma única parte da população e da política à esquerda, a evidência demonstra que não só tem um apoio alargado, como é o único que pode disputar a primeira volta contra a direita. Alegre tem sido um ponto de convergência contra injustiças no país. Pode agora reunir um apoio popular maioritário. Nenhuma outra candidatura estará nesta posição.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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