Carlos Costa explicou há dois dias porque tem que ser criado um “banco mau” para ficar com os créditos difíceis dos bancos. A Comissão Europeia veio ontem sugerir que o prazo para essa decisão é Outubro deste ano.
Os bancos disseram logo de seguida que não estão interessados (mesmo que alguns secretamente desejem que tal aconteça, provavelmente desde que não paguem).
O Presidente disse que concorda se não houver custos para os contribuintes.
O primeiro-ministro disse que há um problema e várias soluções difíceis e logo se vê.
Ou seja: Carlos Costa quer juntar os créditos difíceis mas não pode fazê-lo sem custos e os bancos podem entregar os créditos mas não querem pagar a conta. Os decisores políticos já perceberam que este dossier é difícil e reservam a sua opinião, já se expuseram demasiado e não querem repetir o erro.
A referência ao modelo italiano é por tudo isso um subterfúgio (Ricardo Cabral já aqui falou disso). Em Itália haverá 360 mil milhões de créditos de má qualidade; o Atlante, o fundo de salvação dos bancos, só tem 5 mil milhões, pagos pelos vários bancos – à escala portuguesa, isso seriam poucas centenas de milhões, uma gota de água. O fundo italiano, aliás, não tem servido para tratar do problema sistémico, mas antes de operações de emergência para bancos que estão a colapsar (foi o caso da Banca Popolare di Vicenza). Como o Estado não pagou, os bancos estão a financiar o fundo, mas isso implica, como anteontem alguns banqueiros responderam no Hotel Ritz a Costa, que os que cumprem cobrem os prejuízos dos que não cumprem, ou seja, há um incentivo para a trafulhice ou simplesmente para decisões irresponsáveis.
Que o governador se preocupa pouco com a conta do contribuinte, isso já ficou evidente no caso do Banif e noutros. Portanto, não esperemos cuidados especiais por parte do Banco de Portugal. Curiosamente, a Comissão Europeia até pode facilitar uma operação destas, mesmo que tenha dinheiros públicos, porque neste caso seriam ajudas de Estado ao bancos privados, o que é bem visto em Bruxelas (já se for a capitalização directa da CGD cai o Carmo e a Trindade). Em qualquer caso, já sabemos, tudo isto redunda no final em prejuízos para a conta pública.
Mas a posição do primeiro-ministro é mais complicada. Pode haver quem no governo pense que esta solução é um Plano B para a Caixa. Ora, quem for por esse caminho vai mal. A Caixa só pode ser capitalizada directamente e com custos transparentes. Não tem nenhum sentido fazer uma operação indirecta de recapitalização do sistema bancário com a nacionalização dos créditos mal parados, que acabarão sempre por ser parcialmente cobertos por impostos, como subterfúgio para disfarçar a natureza de uma operação. Portanto, mais vale pôr dinheiro na Caixa, mudar a sua forma de proceder, diminuir as operações de risco, incentivar o crédito, orientar o financiamento para a criação de emprego e evitar grandes estratagemas de perna curta.
Em todo o caso, fica uma pergunta: se, no fim de tudo, o que resulta é que a banca, quando acumula más operações, pede que o Estado as nacionalize e fique com os prejuízos potenciais, o que é que isso diz sobre a natureza do negócio que é a concessão de crédito?
Artigo publicado no blogue Tudo Menos Economia