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O baile da incineração

A vida não parou e mesmo no meio da tempestade há bailes que continuam. É o caso da construção da incineradora de São Miguel, um baile que começou em 2010, sendo que os ensaios remontam a tempos ainda mais antigos.

Acabou o carnaval mais atípico das últimas décadas. Não houve batalhas, bailes nem bailinhos por força das medidas de combate à pandemia, como não poderia deixar de ser. A pandemia obrigou a múltiplos cancelamentos mas também levou à reflexão sobre decisões públicas e privadas já tomadas e até consolidadas. No entanto, muitas decisões continuam a ser tomadas e muitos processos continuam a avançar. A vida não parou e mesmo no meio da tempestade há bailes que continuam.

É o caso da construção da incineradora de São Miguel, um baile que começou em 2010, sendo que os ensaios remontam a tempos ainda mais antigos. Data desse ano o Estudo de Impacte Ambiental do projeto. Essa monstruosa incineradora tinha nessa altura capacidade para incinerar 138 mil toneladas de resíduos por ano, quando a região produzia na altura 146 mil toneladas (sensivelmente o mesmo que produz nos dias de hoje).

Era uma máquina que iria incinerar quase todos os resíduos dos Açores, ignorando tudo o que são boas práticas ambientais nesta área

Era uma máquina que iria incinerar quase todos os resíduos dos Açores, ignorando tudo o que são boas práticas ambientais nesta área. Essa monstruosidade foi redimensionada e o projeto atual tem capacidade de incinerar 55 mil toneladas de resíduos por ano. Ainda assim, estamos a falar de mais de metade dos resíduos produzidos na ilha de São Miguel. Tendo em conta que a meta europeia de reciclagem para 2025 é de 65% está mais do que claro que é impossível que a ilha de São Miguel contribua com a sua parte para o cumprimento das metas. O seu cumprimento é importante, não por ser uma imposição de Bruxelas, mas sim porque é o contributo mínimo que temos de dar para salvar o clima.

Não podemos esquecer também que, entretanto, construiu-se uma incineradora na ilha Terceira - claro está - largamente sobredimensionada para a ilha. As duas em funcionamento terão capacidade de incinerar 95 mil toneladas ano. Assim, se o projeto da AMISM avançar a região ficará com uma capacidade para incinerar 65% dos resíduos, inviabilizando o cumprimento das metas.

O processo parece de facto imparável porque há um coerente consenso do centrão que se materializa no bloqueio na Associação de Municípios da ilha de São Miguel e no cruzar de braços do anterior e atual governo regional do PSD/CDS/PPM apoiado pelo CH e pela IL.

Mas o consenso parece estar alargado. O PPM que outrora zurzia na incineradora, agora que chegou ao Governo, alinha no bailinho da incineração. O CDS, que em campanha defendia a suspensão do projeto, hoje tem a pasta do ambiente e das alterações climáticas do Governo Regional. Já saltou para a roda e baila de reunião em reunião. E os partidos que suportam o Governo (CH e IL) o que defendem? Vão exigir ao governo que intervenha para parar o processo? Ou irão também eles entrar na roda e procurar o seu par?

Ainda vamos a tempo de parar o processo. E para isso só é preciso uma coisa: Vontade política.

P.S.

Nas páginas do Açoriano Oriental, na sua edição de sábado, Paulo Estevão dedicou um artigo à oposição nos Açores, incluindo o Bloco e a minha pessoa. Usou a mesma forma fulanizada, insultuosa a que já nos habitou. Essa forma de fazer política não merece resposta, até porque a credibilidade de Estêvão está pela hora da morte. Basta lembrar que Estevão atribuiu o cognome de “o incinerador” a José Manuel Bolieiro, apelidou-o de “coronel da tropa incineradora” e afirmou que Bolieiro é “ incapaz de introduzir qualquer transformação ou reforma”. Hoje, sabemos que Estevão e o PPM coligaram-se com José Manuel Bolieiro e com o PSD. No entanto, não posso deixar de repudiar a abjeta utilização, por parte de Paulo Estêvão, do nome e memória da Zuraida Soares apenas para atacar o partido que ela liderou. Em política não vale tudo.

Sobre o/a autor(a)

Deputada do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores e Coordenador regional do Bloco/Açores
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