Com capas, manchetes e páginas cheias, vários jornais têm-se dedicado a um novo fenómeno, que seria uma vaga de críticas de militantes do PCP à política seguida pelo seu partido ao longo dos últimos quatro anos. O debate é interessante, é natural que num partido de esquerda se discuta a situação excecional que em 2015 levou a compromissos mínimos que impediram a continuidade do governo das direitas – com amplo apoio dos eleitores, tendo a decisão de abrir a negociação para o novo governo sido tomada por unanimidade na direção do Bloco e suponho que por larga maioria na do PCP – e os seus resultados posteriores. Foi, para as esquerdas, uma situação inédita. Foi também inédito para o PS. Portugal nunca tinha visto nada assim. Essas escolhas têm consequências e, como é natural, condicionaram as margens da manobra dos protagonistas nos anos seguintes. Mas, no caso do debate dentro do PCP que está a ser citado pela imprensa, há um problema: é que não é um debate. Pela simples razão de que um debate não pode ser anónimo.
Sou de há muito tempo crítico do uso que se faz das fontes anónimas em casos demasiado frequentes na imprensa portuguesa. Acho que o recurso a fontes anónimas está bem definido nos códigos deontológicos que conheço e respeito: o jornalista protege o anonimato de uma fonte quando essa pessoa pode sofrer retaliações pelo facto de ter dado uma informação (que tem que ser verificável), ou se essa informação, sendo do interesse público, não pode ser obtida de outra forma. Nada disso se aplica neste caso. Nem noutros a que tenho assistido: por exemplo, vemos com frequência um ministro proclamar posições políticas sob anonimato, o que contraria a regra deontológica indicada (sendo ele o poder, não temerá retaliações, mas quer evitar ser contrariado ou, mais, que possa ser discutido o motivo pelo qual anuncia uma determinada posição). Por maioria de razão, a regra da proteção do anonimato também não se aplica a um partido. Nesse caso, estamos perante a apresentação de opiniões e de nada mais. E uma opinião não existe separada de quem a protagoniza. Em particular, quem entrou num partido que tem a cultura interna do PCP aceitou as suas regras, incluindo sobre a forma como pode expressar a sua opinião. Podemos gostar ou não e até, como é o meu caso, tendo sempre vivido numa cultura diferente, entender que se trata de uma forma limitativa. Mas quem se inscreveu no PCP entendeu subscrever e aderir à sua regra.
Em todo o caso, o problema do uso do anonimato no debate político é que as declarações sem corpo podem ser uma fraude: mesmo partindo do princípio de que alguns órgãos de comunicação social terão uma regra interna que determine uma verificação da existência real da fonte, o anonimato permite todo o tipo de manipulação do jornalista pela pessoa que o informa (por exemplo, uma fonte que declara representar um amplo grupo interno de opositores, sem que tal possa ser estabelecido). Assim, se um anónimo diz que na reunião do Comité Central 90% dos presentes nunca se pronunciam, ou que em Viseu ou no Porto há uma forte oposição à geringonça, não podemos saber se tal é verdade e, como não sabemos quem é, nem podemos ter opinião sobre a consistência da declaração (a pessoa em causa pode nunca ter assistido à reunião que descreve nem ter qualquer contacto com as organizações de Viseu ou do Porto). Ou seja, o anonimato abre a porta a jogos de boatos e a um universo de informações sem qualquer possibilidade de confirmação.
Há um blog que publica abundante comentário sobre a política do PCP, e é nele que se baseia grande parte da informação publicada sobre o assunto. Mas como posso saber se a autoria do blog é mesmo de militantes do PCP? Não posso. Como posso saber se corresponde a discussões internas, a documentos apresentados, a intervenções em reuniões? Não posso. No caso destas notícias sobre o PCP, o anonimato pode pois ser uma forma de falsificar a perceção de quem lê a notícia e é certamente um instrumento de ataque que foge do contraditório, que afinal é o essencial do debate. Imagine, por puro exercício, que alguns apoiantes do Partido Comunista Grego decidem transformar as suas opiniões em linhas de fratura dentro do PCP. Sejam ou não, tenham sido ou nunca tenham sido militantes do PCP, podem usar um blog anónimo para reclamar qualquer estatuto, para contactarem anonimamente com leitores e jornalistas e para simularem um confronto de opiniões que, na verdade se recusam a fazer. Isso seria antes de mais uma fraude.
Acresce que, como em todos os partidos, os caminhos das opiniões e estratégias levou várias pessoas a questionar as escolhas do PCP ao longo do tempo. Alguns saíram, como José Barros Moura, que era eurodeputado e que teve a dignidade de abandonar o lugar para o qual tinha sido eleito na lista do PCP; ou como João Semedo, que, tendo divergências significativas, se demitiu do partido em que militara por várias décadas. Outros, também críticos, fizeram outra opção, como João Amaral, não escondendo o seu ponto de vista mas respeitando a regra do partido onde escolheu ficar até ao último dos seus dias. Nenhum deles usou o anonimato para promover uma causa ou uma campanha interna. Adivinho a razão pela qual não foram pela facilidade da luta de bastidores: na política a clareza é tudo.
Artigo publicado em expresso.pt a 23 de abril de 2019