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O argumento da escolha é… anti-escolha!

Passos Coelho quer uma re-edição em Portugal de um sistema de saúde americano, que os próprios americanos odeiam e estão a tentar mudar!

Passos Coelho declarou no Diário Económico que prepara uma revisão constitucional cujos objectivos passam por retirar da educação e da saúde o seu carácter tendencialmente gratuito e assegurado predominantemente pelo Estado. Segundo Passos Coelho, os cidadãos deverão ter o direito a escolher se querem ser atendidos no Público ou no Privado e não deverão pagar duplamente por isso.

Este argumento tem feito escola nos últimos anos, propagandeado pelos liberais, proclama a liberdade e a escolha como o seu sustentáculo. Nada podia ser mais falso! Esta proposta de revisão não é estéril nem tem como único objectivo apenas as palavras da Constituição. O que Passos Coelho pretende mesmo é desinvestir e desestruturar o nosso serviço público de saúde sem ter a Constituição a perturbá-lo. Passos Coelho faz parte daquele grupo de liberais que acreditam que o Estado Social e a solidariedade não servem para nada e que o individualismo é o único valor que funciona na nossa sociedade.

Mas este argumento é especialmente falso porque ele não acrescenta escolha, pelo contrário, retira escolha. Retirar uma parte importante do financiamento do SNS (os impostos) é enfraquecê-lo, isto é, é retirar-lhe serviços, fechar hospitais e centros de saúde e deslocalizar especialistas para o sector privado. E um SNS amputado não é uma escolha, é uma fatalidade! Por outro lado, não há espaço para existirem, em Portugal, dois sistemas de saúde paralelos e funcionantes: um público e um privado – não há dinheiro, não há estrutura e, sobretudo, não há recursos humanos! É uma grande mentira achar que existem médicos suficientes para assegurar hospitais públicos e hospitais privados e também é uma grande mentira achar que o mesmo médico pode fazer muito bem as duas coisas!

Na prática o que Passos Coelho quer mesmo é que exista um SNS mínimo, a funcionar com os profissionais menos qualificados, escasso em recursos e escasso em capacidade científica e um sistema de saúde privado, pago a peso de ouro, onde estarão os melhores profissionais (após fugirem de um SNS fustigado pela penúria) e onde os clientes acederão através do pagamento de quantias enormes ou pelo recurso a seguradoras, a cobrarem importantes mensalidades e a discriminarem o tipo de tratamento que cada um pode ter, em função daquilo que paga!

Concluindo, a escolha é… anti-escolha, porque nesta situação os mais pobres não escolhem porque não terão possibilidades de pagar o sistema privado e terão de ficar com as sobras do SNS; e os mais abastados também não poderão escolher um sistema público, mesmo que queiram, porque estando deficiente e tendo estes possibilidades, terão que recorrer ao melhor dos serviços que será o mais caro!

No fundo, Passos Coelho quer uma re-edição em Portugal de um sistema de saúde americano, que os próprios americanos odeiam e estão a tentar mudar!

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