O apetite pela guerra civil

porFrancisco Louçã

23 de setembro 2025 - 12:39
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Repetir hoje o apelo a uma guerra civil, aliás apoiado em iniciativas presidenciais recentes como enviar tropa para reprimir manifestações em Los Angeles, ou ameaçar a ocupação de Chicago, cidades governadas por democratas, tem significado.

O assassinato de Charlie Kirk, um destacado influencer trumpista, acelerou o curso para a crise institucional nos Estados Unidos e levou dirigentes republicanos a multiplicarem apelos para uma guerra civil. O simples uso da expressão é carregado de história, dado que houve mesmo uma guerra civil no país, na década de 1860, e transformou o mapa nacional – mas os esclavagistas foram derrotados. Repetir hoje o apelo a uma guerra civil, aliás apoiado em iniciativas presidenciais recentes como enviar tropa para reprimir manifestações em Los Angeles, ou ameaçar a ocupação de Chicago, cidades governadas por democratas, tem significado.

Não é paradoxal que Kirk tenha sido uma das vozes para esta reconstrução do passado: numa das suas intervenções mais célebres, considerou que o Ato dos Direitos Civis, de 1964, que garantiu igualdade legal para os negros no país, tinha sido um “erro”. Há portanto uma coerência entre a contracultura que Kirk procurou promover e o impulso guerreiro dos dirigentes trumpistas de hoje. Aliás, ele foi um dos promotores mais desbragados do discurso de ódio (de Biden dizia que “Joe Biden é um demente de Alzheimer, um tirano corrupto que honestamente devia ser mandado para a prisão e/ou condenado à pena de morte pelos seus crimes contra a América”).

O ideal de Trump é uma ditadura e ele nem o quer esconder

Contudo, há também uma incoerência: toda a carreira de Kirk foi feita invocando o direito à palavra livre, a 1.ª Emenda à Constituição, e os seus seguidores ameaçam agora e procuram reprimir quem tenha uma posição distinta da do seu mártir. Kirk está a ser transformado num pedestal da devoção trumpista na condição de proibir as opiniões diferentes. O que é afinal a essência do trumpismo: o presidente exige em tribunal 15 biliões de dólares ao New York Times por ter publicado artigos e opiniões que lhe são desfavoráveis (e alguns canais de televisão já se vergaram a exigência semelhantes). O ideal de Trump é uma ditadura e ele nem o quer esconder.

Este texto é parte da intervenção de Francisco Louçã no podcast “Um pouco mais de azul”, onde também participam o jornalista Fernando Alves e a poeta Rita Taborda Duarte. O podcast completo aqui

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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